Translate
Seguidores
quinta-feira, 10 de maio de 2012
As Regras da Exceção
maio 10, 2012
|
por
Vinícius...
|
* Por Nadjara Régis Em sua obra Psicologia de Massas do Fascismo, Wilhelm Reich, referindo-se a Hitler, afirma que seu êxito não se deveu à sua personalidade. Um pouco antes, à pagina 34 da 3ª edição, publicada em 2001 pela editora Martins Fontes, Reich já havia exposto sua compreensão de que somente quando a estrutura de personalidade do líder corresponde às estruturas de amplos grupos, um “líder” pode fazer história. E mais adiante, à página 38, ele sustenta que foi a estrutura humana autoritária, que teme a liberdade, que possibilitou o êxito da propaganda de Hitler. Neste momento, o que me importa é essa ‘estrutura humana autoritária’. Os autoritários, que se legitimam na sociedade a partir da tentativa de manipulação do medo – o medo da morte – que há em cada pessoa. E quando a sociedade lhe oportuniza o uso dos meios da força, a pessoa autoritária, então, expressa, às avessas, toda sua revolta contra a autoridade a quem costuma ter respeito e submissão.
Fico pensando nessas coisas quando me deparo com situações melindrosamente incompatíveis com o regime democrático constituído desde 1988, no Brasil, capazes de destruir em minutos todas as décadas de pensamento intelectual produzido nacional e internacionalmente e toda a produção legislativa de tratados, acordos e declarações, a respeito dos direitos humanos e das sociedades democráticas. Em 19 de novembro, por volta das 19h45, nas imediações do Max Hipermercado, situado na Avenida Brumado, quatro servidores do Estado da Bahia foram abordados por pessoas que se disseram da polícia:
– Pare o veículo e não olhe para os lados.
– Pára o carro agora filho da puta!
– Virem de costas para a viatura. Coloque a mão na cabeça agora, seu importante!
– Andem de costas, no meio da avenida, ninguém aí olhando pra trás.
– Abram as pernas. Eu quero toda aberta, e quando tiver toda aberta eu quero que abra mais.
– Saia daqui agora, quer levar uma bala na cara, filho da puta.
– Tenente, não tem que dá explicações a ninguém não…
– Engraçadinho…
– Vamos embora!
Fiquei sabendo que durante toda a operação não foi possível aos abordados identificar as pessoas que se diziam policiais. Pessoas inculcadas num espécime de busca paranóica por um veículo Pálio de cor vermelha, e, por isso, conscientemente determinadas em ofender a integridade moral, quiçá física, das vítimas. Sobre o modus operandi deles, sequer as disposições constitucionais que regulam as situações de exceção a direitos e garantias individuais em regime de Estado de Sítio lhes serviriam de justificação.
O que me deixa pasma é que toda aquela “estrutura humana autoritária” foi colocada à disposição da proteção de um bem patrimonial. Pergunto-me: a serviço de que ordem? E foi assim, por uma insurgência irracional, que um diretor de escola estadual, dois professores da rede estadual e um coordenador de hospital estadual viram-se completamente desprotegidos da lei perante figuras de fé pública e porte legal de arma, de modo que fico com a minha convicção de que a sorte teria batido às suas portas se os referidos abordados não fossem, ao cabo, “seus colegas de Estado”.
Esta situação fez-me lembrar um sofrimento por que passei, e que envolveu-me de rancor por uns cinco dias, dos quinze em que me hospedei na Cité Univèrsitaire, em Paris, quando, na saída do Monoprix, uma Loja de Departamento equivalente às Lojas Americanas, aqui no Brasil, fui barrada bruscamente por um segurança armado o qual, baseado em nada, determinou que eu abrisse a mochila para ver se a “turista com cara de estudante” surrupiava alguma mercadoria. Sozinha, em terra estrangeira, nada fiz senão ceder à ‘autoridade’ sem sequer resmungar merecidos impropérios àquele que, revestido de “seu” micropoder, puxava a corda de quem lhe parecia em condição de mais fraco.
Há, pois, um longo caminho cultural para destituir a “família autoritária”, núcleo-base da formação do Estado autoritário, e, assim, resvalar centenas de potenciais “estruturas humanas autoritárias” que inconscientemente promovem o réquiem do totalitarismo em todo o mundo, fazendo com que alguns estudiosos já compreendam o Sistema Internacional de Defesa dos Direitos Humanos como superestrutura de dominação, um discurso falido.
E seja pela história recente de domínio entre países, seja analisando os fatos cotidianos da história da vida privada, é possível perceber ao regime democrático a fragilidade própria de uma borboleta. A violência que se pratica a um, ali, se praticará a outro, acolá, é só uma questão de tempo e de lugar.
Se nas ditaduras a verdade se constrói assimilando-se pelo silêncio o discurso de pensamento único; nas democracias não há verdade sem pensamentos, não há verdade sem palavras. Deixo, aqui, as minhas.
Nadjara Lima Régis é advogada e Procuradora Geral do Município
Assinar:
Postar comentários
(
Atom
)
Buscar neste blog
+Lidas na Semana
por autor(a)
Arquivo
-
▼
2012
(295)
-
▼
maio
(137)
- Para Paulo Paim, a discriminação racial no Brasil ...
- APNs se destacam em sessão afro na Câmara de Maceió
- Waldenor discute seca no Brasil em Debate
- PGE SE PRONUNCIA SOBRE DECISÃO DO TJ ACERCA DA GRE...
- EXCLUSIVO: Justiça manda Wagner devolver salários
- Precisamos ler Sun Tzu
- TRÁFICO E SOCIEDADE
- Ocupa Banco do Brasil - MPA (Movimento dos Pequeno...
- UM ENCONTRO COM O HELINHOCENTRISMO
- Xote da melhor qualidade com a banda: FORRÓ NA HORA
- O valor de um sonho
- Quem é Karl Heinrich Marx?
- Pablo Neruda assassinado? O que sabemos talvez sej...
- Keynes, keynesianos, mainstrean
- Marx: A História acontece de duas formas: a primei...
- Crise de 1929 - A grande Depressão
- Carta a Mirella ou – faça como Severino de Aracaju...
- Salvador: PCdoB se antecipa ao PT e anuncia data d...
- Eu quero ver quando Zumbi chegar! [ATUALIZADO]
- Waldenor assume Presidência da Comissão da Lei de ...
- A SEDE DO CAPITALISMO...
- Jornada Nacional de Lutas Camponesa do MPA
- A Crise sem fim
- Ecologia de Marx e da compreensão das mudanças na ...
- FENOMENOLOGIA EM COMUNICAÇÃO COM O AMOR
- América Latina: 100 anos de opressão e utopia revo...
- Ariano Suassuna recebe apoio do Senado para indica...
- Marcão: “Não se decide a política em Conquista sem...
- Tempos e ritmos de ver: cegueira e visibilidade no...
- BLOG DO NAPOLEÃO: INFORMAÇÃO COM RESPONSABILIDADE
- Dilma veta partes do Código Florestal que favoreci...
- Professores em greve literalmente dão sangue pela ...
- FRENTE NACIONAL CONTRA A PRIVATIZAÇÃO DA SAÚDE
- Keen versus Krugman: capitalismo, instabilidade e ...
- CinePet apresenta: "O sorrizo de Monalisa"
- A maconha, a política e a saúde – Parte I
- O que é o Decrescimento?
- Ensaios de Economia
- AS CRISES ECONÔMICAS
- Agronegócio, agrotóxico e “agrocâncer”
- 1964: Golpe Militar a serviço do Golpe de Classe
- A raiz nordestina no Hip Hop
- O fracasso da Oposição Conquistense
- O PAPA E A UTILIDADE DO MARXISMO
- Nome, definição e objeto da Economia
- Carta Compromisso
- Carta a Juventude
- As eleições municipais e o desenvolvimento de Vitó...
- Ousar escrever...
- Secretário considera racista publicidade do Govern...
- Vitória da Conquista terra de gente forte.
- Conheça a lista de prováveis candidatos do PT à Câ...
- ANDRÉIA OLIVEIRA: “Estamos construindo um sonho de...
- Assista: Parada do Orgulho LGBT
- O QUE É CHURRECO?
- 25 de Maio: Dia da África
- ABBA vende mais de 5 milhões de cópias de álbum 'G...
- Menino que ficou 'negro' é suspenso de escola
- AS ELEIÇÕES COMO ESPAÇO PARA O DIÁLOGO ABERTO COM ...
- Louis Althusser ( 1918-1990)
- Brumado: professores estaduais fazem manifestação
- Joel e Ataíde fora da disputa
- Vereadores afirmam: não sabiam da audiência
- José Murilo de Carvalho: “Dilma precisa injetar re...
- “Os lírios não nascem da lei”
- PABLO MILANÉS: UM MITO DA MÚSICA CUBANA
- AINDA HÁ ESPERANÇA
- Marcio Pochmann: ‘Ascensão da classe trabalhadora ...
- Que brilho é esse Negro? É o brilho da Paz! É o br...
- CARTA DO RIO DE JANEIRO Desenvolvimento Sustentáve...
- As deserções acabam por nos condenar a um quase et...
- Vitória da Conquista deve ter São João reduzido
- Fabrício: “Eu apoiando, ele ganha no primeiro turno”
- III Parada do Orgulho de Ser LGBT tem programação ...
- Professores atacam Wagner e decidem pela manutençã...
- A mídia, as cotas e o sempre bom e necessário exer...
- "A Pastoral Afro-americana e o Documento de Aparec...
- Simposio Educacao na Perspectiva da Inclusao e da ...
- "A Pastoral Afro-americana e o Documento de Aparec...
- SEBRAE/Vitória da Conquista-BA.
- Chamado por uma Jornada Internacional de solidarie...
- NOTÍCIAS DO CONSU
- Desenvolvimento Sustentável e Erradicação da Misér...
- Demétrio Magnoli e o haitianismo revisitado: a tát...
- O trabalho e a construção do belo
- Desenvolvimento e Sustentabilidade no Semiárido Br...
- Professores lançam petição pública para pressionar...
- Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo Na Hist...
- Para os Calourinhos
- No livro "A Alma do Animal Político”, petista faz ...
- Embasa realiza coletiva para tratar sobre racionam...
- Programa Acolher encerra semana das mães
- Nelson Pelegrino se licencia e Emiliano José reass...
- Lamento dos Afro-descendentes: treze de Maio
- Ruralistas barram punição a escravocratas
- Ângela Guimarães, mulher, negra e nordestina é a n...
- DANE-SE ESSA PRETAIADA
- Desenvolvimento e subdesenvolvimento no mundo pós-...
- MÚSICA BAIANA NOS ANOS 80
- As lutas da Juventude Brasileira
- O Mundo, a Juventude e o Futuro
- 3ª Parada do Orgulho de ser LGBT de Vitória da Con...
- " Saber Cuidar" de Leonardo Boff
- Postura tímida do governo brasileiro pode prejudic...
- Carta ao amigo jornalista da Globo JOSÉ RAIMUNDO
- Parlamento Europeu boicota Rio+20 devido aos preço...
- Caótica implementação do ‘mapa da maconha’ no sul ...
- A estratégia chinesa
- Entre dois mundos
- Cidade ou hospício?
- Quando Deleuze encontra Marx
- CQC polemiza com projeto da “cura gay”
- Coordenação Estadual dos 30 anos ganha mais um par...
- Almiro Sena: brasileiro aprende a ser racista em c...
- CONJUNTURA DA ORDEM
- As Regras da Exceção
- Sinserv já perdeu quase 500 filiados para o Sindacs
- A educação como ferramenta de inserção do trabalha...
- Conquista e Pedral, um caso de amor secular – parte 1
- “Não precisamos de greve para exigir o cumprimento...
- Álvaro Cunhal: "O Partido com Paredes de Vidro"
- VOCÊ JÁ PARTICIPOU DE ALGUM TROCA-TROCA?
- Carta dos Estudantes do Curso de Ciências Econômic...
- Semana de Recepção dos "calouros"
- Vitória da Conquista já está em boas mãos
- Nossa luta é em defesa da sociedade
- Eu não gosto da Luíza Bairros - SEPPIR
- Oona Castro: “Tem jornalista formado que não neces...
-
▼
maio
(137)


0 comments :
Postar um comentário