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O Bairro Alegria e a memória sertaneja
O Bairro Alegria e a memória sertaneja:
a justa homenagem a Guiba na Missa do Vaqueiro
*por Herberson Sonkha
VITÓRIA DA CONQUISTA (BA) – A consolidação da Missa do Vaqueiro no lado oeste de Vitória da Conquista, em 2026, iniciativa defendida com entusiasmo por Luis Carlos Dudé, amplia significativamente o alcance histórico, cultural e religioso da celebração. Mais do que definir um novo espaço para sua realização, essa escolha estabelece um diálogo profundo com a memória social da cidade, especialmente com o Bairro Alegria, um dos mais antigos núcleos urbanos conquistenses, onde a identidade sertaneja permaneceu viva mesmo diante do intenso processo de urbanização.
Na manhã ensolarada — embora fria, como nos antigos invernos conquistenses — do último domingo (19), tive a satisfação de reencontrar velhos amigos para recordar o Bairro Alegria das décadas de 1970 e 1980. Estavam presentes Luis Carlos Dudé, Jadiel Larocca, Tiba e o indefectível Chiquinho, proprietário do tradicional Bar Mandacaru, lugar que continua sendo, para muitos de nós, um dos melhores espaços da cidade para uma boa partida de sinuca, acompanhada de longas conversas sobre a história de Vitória da Conquista.
Esses reencontros transcendem a simples nostalgia. Constituem verdadeiros exercícios de reconstrução da memória coletiva, permitindo compreender como o passado permanece vivo nas experiências compartilhadas pelas comunidades. Como ensinou o sociólogo francês Maurice Halbwachs, a memória individual somente adquire sentido quando inserida na memória social, construída coletivamente pelos grupos humanos.
Naquela manhã, Dudé assumiu naturalmente o papel de memorialista. Entre uma lembrança e outra, descrevia com riqueza de detalhes um tempo em que o Bairro Alegria ainda conservava fortes características rurais. Recordava o antigo Cancelão, nas proximidades do velho aeroporto; a Lagoa de Venceslau — hoje Lagoa das Bateias —; o Mangueiro, na Baixa da Taboa; e a antiga Rua dos Campinhos, atual Avenida Cuiabá, por onde transitavam diariamente boiadas, carros de boi, carroças, tropeiros, cavaleiros e amazonas.
Naquele período, a paisagem urbana ainda não havia rompido definitivamente seus vínculos com o sertão. Os limites entre o rural e o urbano eram difusos, permitindo que práticas culturais, formas de sociabilidade e modos de vida próprios da economia agropastoril permanecessem integrados ao cotidiano da comunidade. O Bairro Alegria constituía, assim, uma verdadeira fronteira cultural entre a cidade em expansão e o histórico Sertão da Ressaca, preservando costumes que remontam à própria formação de Vitória da Conquista.
Ao recordar essas trajetórias, é impossível não fazer memória do inesquecível Frei Chico Carlonne. Referência para toda uma geração formada na comunidade franciscana, foi ele quem acompanhou nossa caminhada desde a infância, ensinando-nos que evangelizar também significa valorizar a cultura popular, preservar a memória e reconhecer a dignidade das tradições de um povo. Sua ação pastoral permanece como testemunho de uma Igreja comprometida com o Evangelho encarnado na realidade cultural do sertão.
Nesse mesmo horizonte insere-se o padre Joselito Oliveira Cruz, carinhosamente conhecido como Padre Guiba, sacerdote da Arquidiocese de Vitória da Conquista. Reconhecido pelo intenso trabalho pastoral e pelo profundo compromisso com a religiosidade popular, Padre Guiba construiu uma rara síntese entre a tradição litúrgica da Igreja Católica e as manifestações culturais sertanejas. Sua atuação junto aos vaqueiros, cavaleiros e comunidades rurais transformou-o em uma das principais referências da Missa do Vaqueiro na região, conferindo à celebração um caráter autenticamente evangelizador, sem romper com a riqueza simbólica da cultura do sertão.
A própria Doutrina Social da Igreja ensina que a evangelização não elimina as culturas, mas as purifica, ilumina e eleva. A inculturação da fé constitui um dos mais importantes instrumentos de preservação das identidades locais, permitindo que a mensagem cristã dialogue com os símbolos, os costumes e os modos de vida de cada povo.
Entretanto, nenhuma tradição permanece viva apenas por meio das instituições. Ela sobrevive, sobretudo, graças às pessoas que transformam os espaços cotidianos em lugares de convivência, pertencimento e memória.
É nesse contexto que emerge a figura de Agberto Cabral da Silva, o inesquecível Guiba do Bar e Mercearia, cuja trajetória ultrapassou a condição de comerciante para transformá-lo em um verdadeiro guardião da memória cultural do Bairro Alegria. Católico devoto e apaixonado pelas tradições sertanejas, fez de seu estabelecimento muito mais do que um ponto comercial: criou um espaço de encontro onde moradores, trabalhadores rurais, filhos de tropeiros, cavaleiros e vaqueiros compartilhavam histórias, aboios, cantorias e experiências que fortaleciam a identidade coletiva da comunidade.
As lembranças dos antigos moradores, especialmente de Dudé, revelam que Guiba nutria profunda admiração pelo aboio e pelo universo simbólico do vaqueiro. Era reconhecido como incentivador das manifestações populares ligadas à cultura sertaneja, contribuindo decisivamente para preservar práticas que resistiram ao acelerado crescimento urbano experimentado por Vitória da Conquista nas últimas décadas do século XX.
Sua memória permanece viva também entre amigos como Dudé, Paulo César, Gil, Jadiel, Marcão, Sonkha, Binho, Bruxa, Sérgio, Aldo Baxaria, Jailton, Seu Neto, Waldemar e tantos outros remanescentes daquela geração que cresceu compartilhando os valores, a religiosidade e a convivência comunitária que marcaram o Bairro Alegria.
Não por acaso, foi em frente ao Bar e Mercearia de Guiba que se realizou, no começo da década de 1980, a primeira edição do Alegria nos Bairros, iniciativa que transformou aquele espaço em um dos principais polos de valorização da cultura popular conquistense. É igualmente necessário reconhecer o protagonismo de Paulo César (PC), irmão de Dudé, responsável pela organização das atividades culturais do bairro e pela realização do projeto. Ao lado de Jadiel Larocca, tornou-se um dos grandes incentivadores das manifestações artísticas e populares, fortalecendo o sentimento de pertencimento comunitário e contribuindo para consolidar o Alegria como referência cultural da cidade.
As recordações de Dudé acrescentam ainda outra dimensão histórica. Ao recordar seu avô, Felismino Alves Feliciano, antigo tropeiro responsável pelo transporte de mercadorias pelas rotas sertanejas, evidencia-se como o Bairro Alegria possui profundas raízes na economia pecuarista que estruturou o desenvolvimento regional. Antes das rodovias asfaltadas, eram os tropeiros que integravam economicamente o sertão, conectando fazendas, povoados e centros urbanos. Suas viagens consolidaram redes comerciais, culturais e humanas fundamentais para a formação histórica de Vitória da Conquista.
Sob a perspectiva da História Social, da Antropologia e da Sociologia da Cultura, a homenagem prestada a Guiba durante a Missa do Vaqueiro revela-se plenamente coerente com os princípios que inspiraram essa celebração desde sua origem, em Serrita, Pernambuco. Idealizada por Padre João Câncio, Luis Gonzaga e Pedro Bandeira, a Missa do Vaqueiro nasceu como um ritual de preservação da memória coletiva do sertão, reconhecendo o vaqueiro como protagonista da formação econômica, social, religiosa e cultural do Nordeste brasileiro.
Da mesma forma, a homenagem conquistense ultrapassa o reconhecimento individual. Ao homenagear Guiba, homenageia-se toda uma geração que compreendeu a cultura sertaneja como patrimônio coletivo. Seu bar representou um verdadeiro "lugar de memória", na concepção do historiador Pierre Nora: um espaço onde as lembranças individuais se transformam em patrimônio histórico compartilhado por toda a comunidade.
Na tradição cristã, a memória possui ainda um significado profundamente espiritual. A própria Eucaristia é celebrada como memorial: "Fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19). Recordar, portanto, não significa apenas reviver o passado, mas torná-lo presente para orientar o futuro. Preservar a memória dos vaqueiros, dos tropeiros, dos aboios e daqueles que dedicaram suas vidas à valorização da cultura sertaneja constitui, assim, um exercício de gratidão, de justiça histórica e de responsabilidade cultural.
Por isso, a realização da Missa do Vaqueiro no lado oeste da cidade representa muito mais do que uma decisão logística. Trata-se do reconhecimento de que a história de Vitória da Conquista também foi construída nas periferias, nos bairros populares, nas antigas estradas das boiadas, nos currais, nos aboios e nos espaços comunitários onde a tradição encontrou abrigo diante das transformações impostas pela modernidade.
Ao reconhecer Guiba como símbolo dessa herança cultural, a Missa do Vaqueiro reafirma sua verdadeira vocação: preservar a memória do povo sertanejo, fortalecer a identidade conquistense e demonstrar que o sertão continua vivo não apenas nas antigas fazendas ou nas rotas dos tropeiros, mas também na memória afetiva do Bairro Alegria, onde a fé, a cultura e a convivência comunitária continuam testemunhando que a história de um povo jamais se apaga enquanto houver quem a preserve e a transmita.
Mais do que uma homenagem a Guiba, a Missa do Vaqueiro consagra a memória de todos aqueles que fizeram do Bairro Alegria um território de resistência cultural. Ali sobreviveram o aboio, as cavalgadas, a solidariedade entre vizinhos, a religiosidade popular e os valores que moldaram a identidade sertaneja de Vitória da Conquista. Preservar essa memória não significa cultivar saudosismos, mas reconhecer que um povo somente projeta o futuro quando conhece, respeita e honra as raízes que lhe deram origem.
A Missa do Vaqueiro reafirma exatamente esse compromisso: transformar a memória em patrimônio, a cultura em identidade e a fé em instrumento permanente de comunhão entre as gerações. É nesse encontro entre história, cultura e espiritualidade que Vitória da Conquista reencontra parte de sua própria alma e reafirma sua condição de legítima herdeira das tradições do sertão baiano.

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