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INFIDELIDADE OU DISPUTA HEGEMÔNICA?
Entre a fidelidade partidária e a
disputa pela hegemonia: o caso Diogo Azevedo revela muito mais do que uma
cassação de mandato.
Por Herberson Sonkha
A política raramente se explica pelos fatos que aparecem na superfície. A cassação do mandato do vereador mais votado da história recente de Vitória da Conquista, Diogo Azevedo, é um desses acontecimentos que não podem ser compreendidos apenas pelo texto da legislação eleitoral ou pela decisão judicial que encerrou, ao menos formalmente, o caso. Toda decisão jurídica importante nasce dentro de uma determinada realidade política, e é essa realidade que merece ser analisada.
Em recente comentário, o jornalista
Paulo Nunes apresentou uma interpretação que vai além do aspecto jurídico da
perda do mandato. Seu argumento central é que a cassação foi o desfecho de uma
disputa de poder iniciada quando o vereador passou a construir um projeto
político próprio, rompendo, segundo sua leitura, a relação de subordinação
existente entre ele e a prefeita Sheila Lemos.
Independentemente de se concordar
integralmente ou não com essa interpretação, ela oferece uma importante chave
de leitura para compreender a política conquistense: as instituições não
funcionam isoladamente das relações concretas de poder.
Diogo Azevedo construiu sua projeção
pública exercendo a direção da Fundação Esaú Matos, equipamento estratégico da
política municipal de saúde. Sua expressiva votação em 2024 representou muito
mais do que um êxito eleitoral; transformou-o em uma liderança emergente dentro
do próprio grupo governista. Na política, entretanto, votos não significam, por
si sós, autonomia. O poder eleitoral precisa ser convertido em poder
organizacional, partidário e institucional.
É justamente nesse ponto que a análise
de Paulo Nunes ganha relevância. Segundo sua interpretação, o vereador
acreditou que o capital político conquistado nas urnas seria suficiente para
lhe permitir construir uma carreira independente, inclusive alterando sua
posição partidária para disputar novos espaços eleitorais. Entretanto, na
política brasileira, especialmente nos municípios, a força de um mandato
frequentemente encontra limites na estrutura partidária e no comando das
organizações políticas.
A tentativa de migração para o PSDB, sem
que houvesse as condições jurídicas e políticas necessárias para tanto, teria
colocado em evidência um aspecto clássico da Ciência Política: partidos não são
apenas legendas eleitorais; são organizações de poder. Controlar um partido
significa controlar candidaturas, alianças, recursos, tempo de televisão,
apoios institucionais e, sobretudo, o futuro político de seus quadros.
Nesse contexto, a recusa da Carta de
Anuência, apontada por Paulo Nunes como elemento decisivo para a configuração
da infidelidade partidária, deixa de ser apenas um procedimento burocrático e
passa a representar um instrumento de afirmação da autoridade política da
liderança municipal.
Outro aspecto relevante da análise diz
respeito ao papel desempenhado por ACM Neto. Conforme sustenta Paulo Nunes, o
dirigente estadual do União Brasil encontrava-se diante de uma escolha política
delicada: prestigiar os interesses do PSDB ou preservar a aliança estratégica
com Sheila Lemos, liderança considerada fundamental para o projeto estadual do
partido. Sob essa perspectiva, a decisão não seria orientada por critérios
pessoais, mas pela racionalidade eleitoral que estrutura as coalizões políticas
contemporâneas.
A Ciência Política denomina esse
comportamento de cálculo estratégico. Os agentes políticos raramente tomam
decisões apenas em função de afinidades individuais. Eles calculam custos,
benefícios, capacidade de mobilização eleitoral e perspectivas futuras de
poder. É exatamente essa racionalidade que parece atravessar todo o episódio.
Outro elemento destacado pelo jornalista
refere-se à permanência do vereador, por aproximadamente quarenta dias, em
cargo comissionado na Prefeitura enquanto exercia simultaneamente o mandato
parlamentar. Caso essa situação tenha efetivamente ocorrido nos termos
narrados, ela suscita relevantes questionamentos jurídicos e administrativos.
Entretanto, mais importante do que discutir a eventual irregularidade é
compreender seu significado político. Paulo Nunes interpreta esse episódio como
demonstração de que as relações entre Executivo e Legislativo, muitas vezes,
ultrapassam os limites da separação formal entre os Poderes e passam a integrar
estratégias de acomodação política.
Sob a perspectiva sociológica, esse
episódio revela a existência de complexas redes de interdependência entre
lideranças, partidos e instituições. Como ensinava Max Weber, o poder político
não se sustenta apenas na legalidade; depende também da legitimidade e da
capacidade de comando. Já Pierre Bourdieu demonstraria que votos representam
capital político, mas esse capital somente produz autonomia quando articulado
ao controle das estruturas institucionais.
A filosofia política igualmente oferece
importantes contribuições para compreender esse episódio. Desde Nicolau
Maquiavel sabemos que conservar o poder exige prudência, cálculo e capacidade
de administrar alianças. A ruptura de pactos políticos quase sempre produz
consequências que ultrapassam o campo das relações pessoais. Não se trata de
moralizar a política, mas de reconhecer que ela possui uma lógica própria,
frequentemente distinta da ética privada.
Entretanto, é a tradição marxista que
talvez ofereça a interpretação estrutural mais profunda desse caso. Para Karl
Marx, o Estado não constitui um espaço neutro de administração pública, mas um
terreno permanente de disputa entre grupos que procuram dirigir politicamente a
sociedade. Já Antonio Gramsci amplia essa compreensão ao demonstrar que o poder
não se exerce apenas pela coerção jurídica, mas principalmente pela construção
da hegemonia.
É justamente sob essa lente que a
conjuntura conquistense pode ser interpretada. O conflito entre Diogo Azevedo e
Sheila Lemos não seria apenas um desentendimento entre duas lideranças.
Representaria uma disputa pela direção política do próprio grupo governante. De
um lado, uma liderança consolidada buscando preservar sua hegemonia, organizar
sua sucessão e manter sob controle os instrumentos partidários e
administrativos. De outro, uma liderança emergente procurando converter
expressiva votação em autonomia política.
Nesse sentido, a fidelidade partidária
deixa de ser apenas uma categoria jurídica para transformar-se em instrumento
de organização da hegemonia. A legislação eleitoral atua como mediação
institucional de conflitos que, em sua essência, são disputas políticas.
Também merece atenção a leitura
apresentada por Paulo Nunes sobre o projeto sucessório da prefeita. Segundo sua
interpretação, a eleição de seu marido para deputado estadual integraria uma
estratégia de longo prazo voltada à continuidade do grupo político no comando
do município. Independentemente de tal hipótese vir ou não a se confirmar, ela
dialoga com um fenômeno amplamente estudado pela Ciência Política brasileira: a
formação de grupos dirigentes locais que buscam reproduzir seu poder por meio
da ocupação sucessiva de cargos eletivos e do fortalecimento de alianças
familiares e partidárias.
O caso revela, portanto, que a política
municipal não pode ser reduzida à disputa entre indivíduos. Ela expressa
relações estruturais de poder, controle institucional, organização partidária,
formação de elites dirigentes e construção permanente da hegemonia.
Por essa razão, a cassação do mandato de
Diogo Azevedo constitui apenas a face mais visível de um processo político
muito mais profundo. A verdadeira disputa não estava apenas no Tribunal
Eleitoral, mas no interior das estruturas de poder que organizam a política de
Vitória da Conquista.
Como reflexão crítica, sugere-se (ou
deveria) compreender que episódios dessa natureza não devem ser analisados
exclusivamente pela dimensão moral das condutas individuais. Eles precisam ser
inseridos na dinâmica histórica da reprodução do poder político, das
estratégias de dominação, da organização das elites locais e da permanente luta
pela direção do Estado.
No fim das contas, talvez Paulo Nunes
tenha apontado a questão essencial de toda essa conjuntura: não foi apenas um
vereador que perdeu um mandato. O que estava em disputa era quem possui, de
fato, a capacidade de dirigir politicamente um projeto de poder em Vitória da
Conquista e de definir quem pode — e quem não pode — ascender dentro dele.


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