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Observação-contribuição ao ensaio: “Autocrítica de uma professora derrotada”
Observação-contribuição ao ensaio:
“Autocrítica de uma professora derrotada”, de Professora Dra. Adriana Amorim.
*por Herberson Sonkha
Há textos que comentam conjunturas; outros, mais raros, deixam entrever as fissuras estruturais do mundo que os produz. O ensaio de Adriana Amorim pertence a essa segunda ordem. Não se trata apenas de um texto circunstanciado por uma derrota institucional, mas de uma reflexão que alcança, pela via da autocrítica, um problema histórico: o da universidade como espaço simultâneo de emancipação e reprodução das hierarquias sociais.
E talvez resida justamente aí sua grandeza.
Porque a autora não fala do lugar confortável da exterioridade crítica (daquele ponto onde, por vezes, o intelectual denuncia o mundo como quem não participa de suas engrenagens). Ao contrário: fala desde dentro da contradição. Fala como quem se sabe implicada na matéria que analisa. E esse gesto, antes de qualquer elaboração teórica, já é profundamente crítico.
Sua reflexão dialoga explicitamente com Pierre Bourdieu, especialmente na mobilização das categorias de distinção e pretensão, como chaves para compreender a incessante recriação das hierarquias acadêmicas. Mas o texto, em sua força latente, permite ainda um desdobramento fecundo a partir da crítica marxista da universidade. E é nesse espírito, respeitosamente, que esta observação se pretende como contribuição.
Porque, se em Bourdieu a universidade aparece como campo de reprodução do capital simbólico, a tradição marxista convida a interrogá-la também como forma histórica vinculada à divisão social do trabalho e à reprodução das relações de classe.
Nesse sentido, o mal-estar que atravessa o ensaio de Adriana Amorim talvez ultrapasse a denúncia do elitismo universitário. Talvez toque, mais radicalmente, o problema da forma universitária sob a ordem burguesa.
Não por acaso, sua crítica à escalada dos títulos (graduação, especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado) alcança uma ironia devastadora. Porque ali se expõe, com delicadeza e mordacidade, o mecanismo pelo qual o saber, muitas vezes, deixa de ser potência humana para converter-se em credencial hierárquica.
Essa percepção, lida desde uma chave marxista, poderia ser formulada como crítica à mercantilização e ao fetichismo do conhecimento.
Produzir.
Pontuar.
Indexar.
Ranques.
Currículos.
Performar.
Como se a inteligência pudesse ser medida por métricas.
Como se o pensamento pudesse ser reduzido a produtividade.
A “fogueira das vaidades”, metáfora admirável empregada pela autora, pode ser lida também como imagem poética do produtivismo acadêmico — essa forma particular pela qual a racionalidade do capital penetra o interior do trabalho intelectual.
E aqui sua reflexão ganha potência ainda maior.
Porque não denuncia apenas indivíduos.
Expõe formas.
Expõe estruturas.
Expõe relações.
E isso é crítica.
A contribuição marxista talvez apenas acrescente que tais distinções não operam exclusivamente no plano simbólico; ancoram-se em desigualdades materiais: tempo disponível para estudar, heranças culturais, financiamento, racialização dos acessos, monopólios de legitimidade.
Por isso sua menção às políticas afirmativas possui enorme densidade política.
Porque toca um dos pontos mais sensíveis da universidade brasileira contemporânea: a disputa sobre quem pode produzir saber e em nome de quais experiências históricas.
Nesse aspecto, sua defesa implícita da graduação (e do retorno ao “olho no olho”) carrega algo que recorda Paulo Freire, Antonio Gramsci e, em chave brasileira incontornável, Darcy Ribeiro.
Porque ali a universidade deixa de aparecer apenas como aparelho e reaparece como terreno de luta.
Como práxis.
Como possibilidade.
E isso, vindo de uma intelectual forjada na experiência pública, crítica e emancipacionista de uma instituição da relevância da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, adquire um peso que não é apenas teórico, mas histórico.
Convém dizer (e com ênfase) que a coragem desse texto não reside apenas na crítica que formula, mas na recusa em reconciliar artificialmente as contradições.
Ele não oferece consolo.
Não oferece síntese fácil.
Habita o impasse.
E nisso há honestidade intelectual.
Mas talvez o gesto mais radical do ensaio esteja adiante, naquele trecho luminoso em que a autora imagina uma universidade capaz de participar da construção de um mundo que possa prescindir dela própria.
Essa formulação é de uma grandeza incomum.
Porque desloca a crítica do ressentimento para a utopia.
Não se trata de negar a universidade.
Mas de sonhar sua superação histórica na universalização social do saber.
Poucas ideias são tão profundamente emancipadoras.
E poucas guardam, sob aparente modéstia, tamanha radicalidade.
Por isso, se me permito uma síntese, diria que “Autocrítica de uma professora derrotada” talvez seja menos um texto sobre derrota que sobre consciência crítica.
A derrota, ali, não é rendição.
É revelação.
E quando Adriana Amorim escreve: “Sigo derrotada. Vitoriosamente derrotada”, não formula um paradoxo ornamental.
Formula uma dialética.
Porque há derrotas que apenas perdem.
E há derrotas que desnudam o real.
Essas, às vezes, inauguram história.
Receba, portanto, esta leitura como gesto de interlocução e reconhecimento a uma intelectual cuja escrita honra a melhor tradição crítica universitária: aquela que não separa pensamento e vida, teoria e práxis, universidade e povo
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