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domingo, 12 de abril de 2026

Manifesto de apoio à Chapa 3 nas eleições da UESB


*por Herberson Sonkha



Declaro publicamente meu voto na Chapa 3 para a Reitoria da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), representada pelo professor Reginaldo Pereira e pela professora Cássia Brandão.

Sou Herberson Sousa Silva, graduando em Economia pela UESB, campus de Vitória da Conquista. Sou trabalhador, oriundo da periferia de Vitória da Conquista (Bairro Alegria), e militante social há mais de 40 anos — destes, quase 30 dedicados ao movimento negro. Minha trajetória de militância teve início ainda na juventude, aos 14 anos, quando fui recrutado pelo movimento estudantil, em 1985, na cidade de Jequié, durante meus estudos no IERP.

Ingressei na UESB em 2005, em um contexto institucional bastante distinto do atual. Sou filho de uma família pertencente à classe trabalhadora, inserida no setor operacional e desprovida de acesso ao ensino superior, o que explica o fato de ser o primeiro da família a ingressar em uma universidade pública. Como ocorre com grande parte da classe trabalhadora, nossa trajetória foi marcada por dificuldades materiais, limitações intelectuais impostas estruturalmente e restrições culturais produzidas pela ordem social vigente.

Essa condição não pode ser compreendida de forma isolada ou individualizante. Ao contrário, deve ser analisada à luz das determinações estruturais do sistema capitalista e da ordem civil liberal-burguesa, que produzem desigualdades concretas e, simultaneamente, difundem ideologias como a meritocracia, que buscam ocultar essas determinações e responsabilizar os indivíduos pelo seu próprio não acesso à universidade.

Diante dessa realidade material, precisei interromper diversas vezes minha trajetória acadêmica para trabalhar e garantir a subsistência familiar, ajudando minha mãe e criando minhas filhas. Essa experiência concreta evidencia as contradições entre o acesso formal à universidade pública e as reais condições de permanência da classe trabalhadora nesse espaço.

Apesar de todas as lutas estudantis travadas pelos CA's e pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UESB, responsáveis por muitas conquistas, ainda há muitas lutas a serem travadas, pois o Estado permanece liberal-burguês e expressa, em grande medida, os interesses das elites econômicas no Brasil. Em 2005, as políticas de acesso e permanência ainda eram incipientes ou inexistentes enquanto políticas estruturadas e dotadas de orçamento próprio. Apenas a partir da pressão das diversas entidades que compõem o movimento negro, foi que, em 2008, a UESB passou a debater a adoção de políticas de cotas, inserindo-se em um movimento mais amplo de democratização do ensino superior no Brasil.

Hoje, observamos avanços significativos. Todos os pontos propositivos abordados pela Chapa 3 são indispensáveis, mas destaco, em especial, o acesso e a permanência estudantil. A criação da Pró-Reitoria de Acesso e Permanência Estudantil (PROAPA) e a destinação de recursos na ordem de R$ 9 milhões (o segundo maior orçamento da universidade) demonstram um esforço institucional relevante da gestão do professor Luiz Otávio de Magalhães. O crescimento do número de refeições ofertadas, que passou de cerca de 10 mil, em 2016, para mais de 300 mil, em 2026, é um exemplo concreto desse avanço.

No entanto, as contradições persistem. Ainda é necessário melhorar a estrutura do restaurante universitário, a qualidade e o custo da alimentação, bem como ampliar o acesso, especialmente no período noturno. Muitos serviços administrativos continuam funcionando apenas durante o dia, desconsiderando a realidade de estudantes trabalhadores.

A residência universitária também demanda melhorias estruturais significativas: ampliação de vagas, qualificação das acomodações, melhores condições de banho, criação de espaços de convivência, acesso à internet e disponibilização de serviços de lavanderia. Além disso, é fundamental aperfeiçoar os critérios de acesso ao Programa de Assistência Estudantil (PRAE), garantindo que estudantes do campo e das periferias (não apenas de Vitória da Conquista, mas de toda a região sudoeste) sejam contemplados de forma mais justa.

Outro ponto central é a necessidade de criação de espaços de acolhimento para estudantes de outros municípios que permanecem na universidade em dois turnos, possibilitando condições dignas de descanso, higiene e permanência (fatores diretamente relacionados ao desempenho acadêmico).

Com a expansão da universidade (que hoje conta com cerca de 15 mil estudantes entre graduação e pós-graduação) os desafios tornaram-se mais complexos e estruturais. Problemas que antes eram pontuais cresceram exponencialmente, configurando verdadeiros gargalos institucionais.

Diante desse cenário, compreendo que a resposta passa, necessariamente, pelo aperfeiçoamento dos instrumentos de execução orçamentária e pelo aprofundamento do legado do professor Luiz Otávio, por meio da construção de um planejamento financeiro estruturante (o que o professor Reginaldo denomina Plano Diretor), que seja cada vez mais democrático, inclusivo e socialmente referenciado. Esse modelo de planejamento, iniciado pela gestão que ora se encerra, deve ser aprofundado por meio da elaboração coletiva, articulando as demandas reais da comunidade universitária e estabelecendo diretrizes para o curto, médio e longo prazo.

Somente por meio do aprofundamento desse planejamento consistente será possível enfrentar os desafios de forma segura, previsível e estrutural, superando propostas baseadas em soluções fáceis, imediatistas, discursos vazios e promessas inexequíveis.

É nesse contexto que manifesto meu apoio à Chapa 3. A candidatura do professor Reginaldo Pereira e da professora Cássia Brandão não se apresenta sob uma lógica messiânica ou salvacionista. A universidade não está à deriva, tampouco sua gestão se encontra em colapso.

Reafirmo que a atual gestão, conduzida pelo professor Luiz Otávio de Magalhães, encerra seu ciclo com um legado que, dentro dos limites jurídico-administrativos, buscou atender às propostas construídas coletivamente nos processos eleitorais de 2018 e atualizadas em 2022. Em muitos aspectos, inclusive, avançou para além dessas propostas, respondendo a uma realidade complexa e em constante transformação.

A história, no entanto, não é estática nem linear. Desenvolve-se de forma dialética, marcada por contradições, avanços e recuos. Interpretar a realidade atual com base em parâmetros do passado, sem considerar suas determinações concretas, seria incorrer em anacronismo.

Cada gestão vivencia sua própria dinâmica histórica, enfrentando desafios específicos e produzindo respostas situadas (algumas mais avançadas, outras mais conservadoras), deixando, ao final, seu legado institucional.

Neste momento, a UESB se encontra diante de uma nova etapa histórica, marcada pela coexistência de problemas estruturais antigos e desafios emergentes. É nesse terreno concreto que se colocam as possibilidades de transformação.

Apoiar a Chapa 3 é, portanto, apostar na continuidade crítica de um projeto coletivo que deu respostas avançadas, no aprofundamento das políticas de permanência e no fortalecimento institucional da universidade, a partir de uma leitura dialética do processo histórico-materialista e comprometida com o mundo do trabalho e seus múltiplos recortes interseccionais.

Tenho convicção de que o professor Reginaldo Pereira e a professora Cássia Brandão saberão conduzir esse novo ciclo, contribuindo substantivamente para o fortalecimento da UESB e deixando, como seus antecessores, sua marca na história da instituição.


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