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O Dia em que Fascistas e os ditos Revolucionários comemoraram e sorriram pelo mesmo motivo
*por Igor Ventura
Na manhã da eleição, a universidade amanheceu diferente. Não porque houvesse flores nos jardins ou brilho novo nos corredores, nada disso. O que pairava no ar era uma espécie de perplexidade organizada, dessas que fazem até o vigia da portaria coçar a cabeça e perguntar se ainda estava no mesmo mundo.
As urnas foram abertas cedo, e cedo também começaram a chegar os eleitores: professores sisudos, técnicos desconfiados, estudantes insones e militantes de todas as bandeiras, cores, credos e rancores. Havia quem falasse em meritocracia entre um cafezinho e outro, quem pedisse oração em círculo e quem prometesse revolução depois do almoço.
Mas ninguém estava preparado para a chapa vencedora.
De um lado, o Coronel, homem de voz grossa, peito inflado e passado cercado de cargos, favores e fotografias ao lado de gente importante. Tinha o talento raro de parecer indispensável em qualquer gestão. Sabia sorrir para cima e mandar para baixo. Falava em ordem, gestão e eficiência, três palavras que usava como quem carrega um chicote invisível.
Do outro lado, a Vice Neopentecostal, mulher negra, de trajetória improvável e presença magnética. Carregava a Bíblia numa mão e, na outra, os fios invisíveis de uma fé mestiça. Misturava sem constrangimento os louvores de templo com os ensinamentos de terreiro, citava versículos entre saudações aos orixás e acreditava que o céu era grande demais para caber numa única doutrina. Prometiam restaurar valores, combater desvios e blindar a universidade contra os maus fluidos da indisciplina.
A união parecia impossível. Era como ver fogo e gasolina assinando pacto de convivência. Contudo, no país das conveniências, impossível é só o nome antigo do improvável.
Quando saiu o resultado, houve silêncio por alguns segundos. Depois, o campus explodiu em comemorações simultâneas.
Os fascistas sorriram porque enxergaram no Coronel a figura paterna que tanto veneram: alguém que manda sem perguntar, decide sem ouvir e chama isso de liderança.
Os revolucionários sorriram porque haviam negociado espaços, cargos em pró-reitorias, promessas de orçamento para centros acadêmicos e a vaga esperança de “radicalizar por dentro”. Diziam entre si, em tom professoral, que era uma aliança tática, dialética, historicamente necessária.
Os religiosos sorriram porque a vice era mulher de fé, e de muitas fés.
Os oportunistas sorriram porque sempre sorriem.
Militantes que ontem se chamavam de inimigos hoje tiravam selfies juntos. Um rapaz com camiseta do Che abraçou um sujeito de coturno e ambos gritaram: “Vencemos!”. Ninguém soube dizer exatamente o quê.
No discurso da vitória, o Coronel agradeceu “às forças democráticas e ordeiras desta casa”. A vice encerrou pedindo que todos dessem as mãos para uma oração ecumênica, invocou Jesus, pediu licença aos ancestrais e saudou os ventos que limpam caminhos.
Na plateia, um professor aposentado murmurou:
A história deixou de ser tragédia e virou assembleia universitária.
E assim ficou registrado nos anais da universidade aquele dia memorável em que extremos se tocaram não por convicção, mas por interesse; em que ideologias rivais brindaram com o mesmo espumante morno; em que fascistas e revolucionários comemoraram e sorriram pelo mesmo motivo:
Tinham vencido sem precisar acreditar em nada.

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