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Circo cumpre papel que prefeitura abandona e é recebido com hostilidade por agentes públicos
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| Foto: Blog do Sonkha |
Por Herberson Sonkha
VITÓRIA DA CONQUISTA(BA) - A Companhia de Arte Circense Royter Circo, ao ocupar uma praça pública abandonada na Vila Serrana I, periferia de Vitória da Conquista, para realizar limpeza da área e oferecer programação cultural à comunidade, acabou recebendo como resposta uma ação hostil da fiscalização municipal.
Na tarde de sexta-feira (24),
quando mais de 80% da estrutura já estava montada, fiscais da prefeitura
determinaram a desmontagem imediata do circo, sem apresentação prévia de
notificação ou concessão de prazo para regularização.
Segundo relato dos
responsáveis, a companhia havia chegado ao bairro dias antes para prospectar a
comunidade e identificar um local viável para instalação. Encontrou uma praça
tomada pelo matagal, com acúmulo de entulho, abandono e problemas sanitários (um
espaço negligenciado pelo poder público).
Diante da situação, o grupo
contratou trabalhadores da própria comunidade para capinar o terreno e preparar
a área para receber o circo. A iniciativa, além de recuperar temporariamente o
espaço público, criaria uma programação cultural em um território historicamente
excluído do acesso a equipamentos e políticas públicas de cultura.
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| Foto: Blog do Sonkha |
Mas a resposta do município
veio em forma de interdição.
De acordo com os circenses, a
fiscalização foi taxativa: o circo deveria ser desmontado em cinco horas e não
poderia se instalar naquele ou em qualquer outro ponto do município sem
autorização. Ainda segundo o relato, houve tentativa de diálogo para buscar
solução administrativa e regularizar a atividade sem prejuízo do investimento
já realizado, mas não houve abertura para negociação.
A medida suscita
questionamentos.
Embora exista legislação que
discipline o uso de praças públicas, o caso exigiria, no mínimo, razoabilidade
administrativa e bom senso. Uma notificação com prazo para regularização até a
segunda-feira, por exemplo, evitaria prejuízos econômicos à companhia e
impediria dano cultural à comunidade.
Mais do que um espetáculo
itinerante, o Royter Circo realizaria uma ação de interesse coletivo.
Além de devolver à comunidade
uma praça limpa e utilizável — função elementar que o poder público não vinha
cumprindo —, o circo movimentaria a pequena economia local, beneficiando
pipoqueiros, baleiros, mercados, serviços de carro de som e ambulantes do
próprio bairro.
A truculência do episódio
chama atenção também pelo modo como a arte popular é tratada.
Em governos de viés
autoritário, manifestações artísticas frequentemente deixam de ser reconhecidas
como expressão livre da criatividade humana e passam a ser vistas como
elementos a serem controlados, domesticados ou hostilizados, sobretudo quando
brotam dos territórios populares.
Nesse sentido, a ação da
prefeitura contra o Royter Circo extrapola uma questão burocrática e revela uma
compreensão empobrecida sobre cultura pública.
O circo possui papel histórico
na formação cultural brasileira. Antes do acesso popular ao cinema e ao rádio,
foi pioneiro no entretenimento performático itinerante e na formação de público
para as artes cênicas. Constitui patrimônio vivo da cultura popular,
transmitindo saberes entre gerações e resistindo, ainda hoje, às imposições
mercantilizadas da indústria cultural.
No Brasil, a
profissionalização da atividade circense foi reconhecida inclusive em marcos
institucionais, como a Lei nº 6.533/1978, que regulamenta a profissão
artística, e por experiências emblemáticas como as escolas Picadeiro e
Picolino, surgidas nos anos 1980.
Por isso, a hostilidade contra
o circo não atinge apenas uma pequena companhia com fluxo de caixa limitado e
dependente de bilheteria para sobreviver. Atinge uma tradição cultural
histórica e, sobretudo, uma comunidade privada de direitos culturais básicos.
Há um simbolismo incontornável
no episódio: enquanto o circo limpava a praça abandonada e criava condições
para o convívio social, o Estado apareceu não para garantir direitos, mas para
interditá-los.
Esse caso também recoloca em
debate a caracterização política do atual governo municipal, frequentemente
questionado quando é situado no campo da extrema-direita.
O conceito, contudo, não é
mero recurso retórico.
Na tradição histórica e
sociológica, extrema-direita designa correntes e governos marcados por
ultraconservadorismo, autoritarismo, nacionalismo excludente e práticas hostis
ao pluralismo democrático. Quando a cultura popular é tratada como problema de
polícia ou objeto de repressão burocrática, e não como direito social, tais
referências deixam de parecer abstratas.
No caso da Vila Serrana, a
pergunta que permanece é simples:
por que um circo que limpou
uma praça abandonada, gerou trabalho, ofereceria cultura e devolveria alegria a
uma comunidade periférica foi tratado como infração — e não como parceiro de
uma política pública que o município sequer realiza?
Essa é a denúncia.



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