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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A Violência Institucional e o Avanço da Extrema-Direita no Brasil e em Vitória da Conquista

 

A Violência Institucional e o Avanço da Extrema-Direita
no Brasil e em Vitória da Conquista


*por Professor João Paulo




Assistindo ao Jornal Nacional, ouvi uma reportagem rápida na qual o chanceler alemão, Friedrich Merz, fala sobre sua preocupação com a vitória do partido de extrema-direita nas eleições regionais em um importante estado do país. Esta preocupação é totalmente compreensível. Afinal, este não é um problema apenas da Alemanha: entramos em um ciclo de crescimento do nazifascismo em todo o mundo ocidental.

Se fizermos uma análise detalhada sobre o risco de uma nazifascistização do planeta, veremos que estamos bem próximos disso. Não só pelo avanço de governos instituídos pela ação direta da Casa Branca em todo o mundo, principalmente na América Latina, mas também pela ação indireta da CIA, infiltrada em todos os países do mundo e elaborando planos nefastos para garantir o poder nas mãos de pessoas a serviço do imperialismo estadunidense e do capitalismo internacional, mas também pelo treinamento de agentes locais nos países que querem dominar e pelas ações práticas para garantir este domínio. Alguém tem dúvidas de que Sérgio Moro, o juiz parcial, Deltan Dallagnol e André Mendonça foram e estão sendo treinados para dar golpes na democracia brasileira?

O grande problema é que o nazifascismo já está se tornando uma mentalidade social, imposta pela indústria cultural burguesa a todo o nosso tecido social, e está incrustada em toda a “sociedade civil e política”. O golpe jurídico-parlamentar e midiático que culminou com o falso impeachment da presidente Dilma Rousseff e com a prisão política de Luiz Inácio Lula da Silva para tirá-lo da eleição de 2018, além de ter conseguido seu objetivo principal, que era impedir a continuidade do projeto popular democrático do PT, ainda começou um processo de construção de uma mentalidade nazifascista em parte significativa da população brasileira.

Esse fenômeno fez com que lideranças políticas de viés nazifascista chegassem à direção do Estado em todo o país. Um bom exemplo disso é a minha cidade, Vitória da Conquista, na Bahia. A terceira maior cidade do estado passou a maior parte de sua história sob o domínio político de oligarquias regionais, que sempre tiveram como único objetivo locupletar-se financeiramente com os recursos públicos do município. Em 1996, depois de pouco mais de uma década lutando para vencer o processo político-eleitoral no município, o Partido dos Trabalhadores venceu uma eleição e, finalmente, esta terra fria, nascida no Sertão da Ressaca, experimentou um período de boas administrações, desenvolvimento econômico, político e social.

Em 2016, aproveitando-se do cenário político nacional, quando era posta em prática a maior campanha de perseguição política e destruição da imagem de um partido político e de suas principais lideranças, além da construção de um imaginário coletivo antipetista, que, voluntária ou involuntariamente, afetou toda a população do país, inclusive a intelectualidade da classe subalterna, que também foi dominada e determinada pelo imaginário coletivo burguês, as antigas oligarquias se unificaram e conseguiram vencer o pleito eleitoral daquele ano, sob o comando de um radialista com características fascistas, representante direto das oligarquias regionais.

De 2016 até os dias atuais, o processo de construção de uma mentalidade nazifascista em nosso município vem se ampliando e chegando a níveis nunca vistos na cidade, nem mesmo durante a ditadura civil-militar. Desde que essa nova oligarquia chegou à direção do poder público municipal, tanto com o falecido prefeito quanto com sua sucessora, oriunda de uma das famílias mais ricas do município, a prefeita Sheila Lemos, tem ficado claro o processo de construção de uma mentalidade de extrema-direita. E esta mentalidade da gestão tem sido amplamente difundida no tecido social conquistense.

As práticas são as mesmas do velho coronelismo do final do século XIX e início do século XX: compra de apoio político com cargos públicos, empregos e a velha forma de governar usando mal o erário público, com políticas que se transformam em votos em anos eleitorais, o que já era de se esperar desta gente sem projeto político. Mas agora essa gestão desastrosa ganhou um novo elemento, ainda mais perigoso: o processo de fascistização de nossa sociedade, a ponto de movimentos sociais e populares serem impedidos violentamente de participar de um desfile cívico na cidade. Nem os piores anos do Pedralismo foram tão radicais.

Há cinco anos, o Grito dos Excluídos, movimento nacional que foi instituído pela Igreja Católica (CNBB), com o objetivo de dar voz aos pobres e explorados pelo capitalismo em nosso país, que nunca tiveram voz nem espaço institucional para se manifestar, e que há trinta e um anos participa do desfile cívico comemorativo à Independência do Brasil em nossa cidade, vem perdendo espaço desde que esses governos com características de extrema-direita chegaram à direção da prefeitura.

Esta turminha não gosta de povo nas ruas, não gosta de movimento social, não gosta da classe trabalhadora conscientemente cobrando compromisso com políticas públicas que melhorem de verdade a vida do povo. Há aproximadamente cinco anos, o Grito dos Excluídos, mesmo tendo cumprido o regramento estrutural imposto pela prefeitura, mesmo aceitando pacificamente o fato de sermos sempre os últimos a desfilar, enfrenta sempre uma manobra para impedir que a população ouça a voz dos movimentos sociais populares.

Já enfrentamos escolas que ficaram paradas na Avenida Brumado, fazendo evoluções de sua fanfarra para nos impedir de passar na integração com a presença do público. Já nos cederam lugar à frente da Marcha para Jesus, só para os aliados da prefeitura terem a última palavra na avenida.

E, nos últimos anos, tivemos de enfrentar a truculência dos “seguranças” da prefeitura, que já fecharam a Avenida Integração com grades de ferro para nos impedir de nos manifestarmos, mesmo sacrificando o desfile dos “carros antigos”, que sempre fecharam o desfile desde que essa “turminha” chegou à prefeitura.

Este ano, cumprimos todo o protocolo proposto pela SMED, aceitamos participar por último e estávamos cumprindo todo o protocolo oficial quando começaram as armações por parte da prefeitura para impedir a participação dos movimentos sociais e populares no Grito dos Excluídos, na atividade comemorativa da Independência do Brasil, certamente postas em prática pela Casa Civil da prefeitura.

Pela ordem, o Grito dos Excluídos entraria na avenida logo após um grupo protofascista que se autoproclama “Legendários”, fundamentalistas cristãos que, em sua maioria, não conhecem a verdadeira face de Jesus Cristo e pregam machismo, autoritarismo, uso da força física, homofobia etc. O que esperar de um governo que prefere ter ao seu lado esta gente em vez dos movimentos populares?

Fora as provocações tradicionais desta gente, esta turma manobrou para que o batalhão de carros antigos ficasse à nossa frente, de forma a impedir a passagem do nosso carro de som, o que inviabilizaria nossa passagem pela avenida, sem falar que já havia uma claque contratada para fazer a campanha dos nazifascistas, pronta para puxar uma vaia ensurdecedora contra o Grito dos Excluídos. Sem o carro de som, nosso movimento passaria sem cumprir seu papel político.

O Grito não tem lideranças instituídas; o povo é quem dá a linha. E, cientes dos problemas que iríamos enfrentar, os companheiros e companheiras tomaram a frente dos carros antigos. Neste momento, o chefe da Casa Civil mandou que a Guarda Municipal impedisse a progressão dos participantes do Grito dos Excluídos, e os seguranças da prefeitura, comandados pela Secretaria de Educação, juntaram-se à Guarda Municipal para impedir a participação do Grito dos Excluídos.

É neste momento que percebemos o quanto a mentalidade nazifascista está entranhada na mentalidade de parte dos servidores da prefeitura e de parte considerável de nossa sociedade. É importante dizer que a Guarda Municipal não agrediu ninguém, mas os seguranças e organizadores da SMED foram para cima dos companheiros que estavam ali argumentando pela passagem do desfile antes dos carros antigos e, de forma agressiva, tentaram intimidá-los.

Em meio à discussão, um destes seguranças veio pelas costas e socou a cabeça de um dos nossos companheiros, também funcionário público de outra instituição, professor universitário e dirigente do CNLB (Conselho Nacional do Laicato do Brasil), que tentou reagir, mas foi covardemente agredido pelas costas. Este companheiro encontra-se hospitalizado, pois, na tomografia, foi detectada uma mancha de sangue intracraniana, e o médico preferiu deixá-lo internado até que seja feita a Ressonância Magnética, para diagnosticar se há um grau maior de gravidade.

A nota da prefeitura, que, de forma velada, tenta atribuir a culpa aos agredidos, é mentirosa. Aliás, mentir não é um problema para essa turma. São de extrema-direita e, no livro Mein Kampf, de Adolf Hitler, ele trabalha com o conceito “die große Lüge” (grande mentira) como ferramenta para conquistar hegemonia política na sociedade civil e política.

Houve, sim, agressão física. O agressor é funcionário público da prefeitura, estava fardado, tem nome e endereço e agiu a serviço da prefeitura. Ao ser retirado por integrantes do próprio Grito dos Excluídos, fez ameaças, dizendo que “pegaria o companheiro agredido depois”. E as agressões verbais e intimidações também são agressões.

Esse é o “modus operandi” da extrema-direita desta cidade e do mundo, já que estamos cheios de exemplos de agressões contra cidadãos vulneráveis por todos os cantos do planeta. Vimos isso no último processo eleitoral, quando companheiros foram assassinados covardemente, pessoas foram agredidas só pelo fato de não pensarem como os fascistas. Agora, a truculência e a violência estão batendo à nossa porta.


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