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domingo, 6 de setembro de 2026

QUANDO OS NOSSOS PARTEM, A LUTA PERMANECE

 

"A memória de José Cerqueira e de uma geração que

fez da política uma forma de transformar o mundo."



EDITORIAL | *por Herberson Sonkha



Quando todos se forem, quem continuará a tocar a luta por um mundo mais justo?

Há perguntas que nascem da tristeza, mas não terminam nela. Algumas perguntas nos obrigam a olhar para trás para compreender o presente e, sobretudo, para pensar o futuro.

A partida inesperada do companheiro José Cerqueira, nesta semana, é uma dessas ocasiões.

Escrevo este editorial como homenagem a Cerqueira, mas também como tributo a uma geração inteira de companheiros e companheiras com quem compartilhamos sonhos, lutas, derrotas, conquistas e esperanças. Homens e mulheres que não aceitaram a sociedade como uma realidade acabada e que dedicaram parte de suas vidas à construção de uma sociedade diferente.

Escrevo, portanto, a partir da memória de quem também viveu parte dessa história.

E memória, para nós, nunca foi apenas lembrança.

Memória é compromisso.


Uma geração que acreditou na transformação

Existe uma distância inevitável entre aquilo que éramos antes dos anos 1980 e aquilo em que nos transformamos depois dos anos 1990.

Nesse intervalo, uma geração de homens e mulheres ajudou a erguer organizações populares, movimentos sociais, sindicatos, partidos, experiências comunitárias e novas formas de participação política que modificaram profundamente a sociedade brasileira.

Não fomos espectadores dessa transformação.

Fomos parte dela.

Aquela geração aprendeu que direitos não são concessões. Que democracia não se resume ao voto. Que cidadania exige participação. Que as conquistas sociais não são dádivas dos poderosos, mas resultado de organização, conflito e luta coletiva.

Foi nesse terreno histórico que homens como José Cerqueira fizeram suas escolhas.

Não escolheram a acomodação.

Não aceitaram a desigualdade como destino.

Não acreditaram que os pobres deveriam permanecer pobres, que os trabalhadores deveriam simplesmente aceitar as condições que lhes eram impostas ou que os privilégios de poucos constituíam uma ordem natural da sociedade.

Eles compreenderam algo fundamental:

aquilo que existe poderia ser diferente.

E essa compreensão já era, por si mesma, uma forma de resistência.


O mundo mudou. A desigualdade permaneceu

Nos últimos trezentos anos, a humanidade atravessou transformações que, em outros períodos históricos, pareciam impossíveis.

A capacidade produtiva alcançou níveis extraordinários. A ciência ampliou os limites do conhecimento. A tecnologia modificou radicalmente as formas de produzir, trabalhar, comunicar e viver.

Produzimos alimentos em quantidade suficiente para alimentar toda a humanidade.

Desenvolvemos tecnologias capazes de transformar profundamente nossa matriz energética.

Ampliamos a expectativa de vida.

Criamos instrumentos científicos para enfrentar doenças e problemas que durante séculos pareciam insolúveis.

Entretanto, existe uma contradição que continua diante de nós:

nunca produzimos tanta riqueza e, ao mesmo tempo, nunca foi tão evidente a distância entre a capacidade social de produzir e a capacidade de garantir uma vida digna para todos.

A riqueza socialmente produzida continua distribuída de maneira profundamente desigual.

Enquanto alguns acumulam patrimônio, poder e privilégios, milhões permanecem privados das condições básicas de existência.

A fome convive com o desperdício.

A tecnologia convive com a exclusão.

A abundância convive com a pobreza.

A possibilidade técnica de produzir energia limpa convive com a permanência de um modelo energético ambientalmente destrutivo.

A capacidade de produzir alimentos convive com a fome.

E o avanço da ciência convive com a precarização das condições de vida de parcelas inteiras da população.

Essas contradições não são abstrações.

Elas têm endereço.


Vitória da Conquista e o mapa da desigualdade

Em Vitória da Conquista, basta observar a cidade para perceber que não vivemos uma realidade social homogênea.

Existem territórios onde se concentram renda, patrimônio, infraestrutura, segurança, serviços privados e oportunidades.

E existem territórios onde milhares de pessoas convivem diariamente com precariedade, pobreza, violência, desemprego, informalidade e insuficiência de políticas públicas.

Não são duas cidades.

É uma mesma cidade atravessada por profundas desigualdades.

A pobreza, portanto, não pode ser tratada como característica natural de determinados indivíduos ou territórios.

Ela possui história.

Possui causas econômicas.

Possui relações sociais.

Possui mecanismos de reprodução.

A desigualdade também não é apenas econômica. Ela se manifesta na cultura, na política, no acesso aos serviços públicos, na possibilidade de ocupar os espaços de decisão e no direito de imaginar um futuro diferente.

É justamente nesse cenário que precisamos compreender o significado de pessoas como José Cerqueira.


José Cerqueira e os que não aceitaram o mundo como destino

Gente como Cerqueira não aceitava transformar a desigualdade em destino.

Não aceitava a ideia de que o mundo sempre foi assim e continuará sendo assim.

Não aceitava a sentença segundo a qual alguns nasceram para possuir e outros para obedecer; alguns para decidir e outros para simplesmente executar; alguns para desfrutar da riqueza e outros para suportar suas consequências.

José Cerqueira pertenceu a uma geração que acreditava que a história poderia ser transformada.

Uma geração que compreendeu que a sociedade não se modifica pela resignação.

Que direitos precisam ser conquistados e defendidos.

Que democracia exige participação.

Que cidadania exige organização.

Que a riqueza produzida pelo trabalho coletivo não pode permanecer concentrada nas mãos de poucos enquanto milhões vivem privados do essencial.

Essa geração acreditava que o futuro não estava escrito.

E talvez seja justamente essa uma das maiores diferenças entre aquela experiência política e o espírito conformista que tantas vezes domina o presente.


Quando uma geração parte

A morte de José Cerqueira não representa apenas a perda de um companheiro querido.

Ela também nos coloca diante de uma questão maior:

o que acontece com uma tradição política quando desaparecem aqueles que ajudaram a construí-la?

Assim como Cerqueira, tantos outros companheiros e companheiras desse campo de pensamento e ação estão partindo.

José Gomes Novais, Milton Novais, Eden, Albertina Vasconcelos, Márcio Matos, Jadiel Matos, Mariano, Noeci Salgado, José Cerqueira e tantos outros.

Cada nome guarda uma história.

Cada história guarda uma experiência.

Cada experiência constitui uma parte da memória coletiva de uma época em que a política era compreendida não apenas como disputa eleitoral, mas como instrumento de organização social e transformação histórica.

Quando um desses companheiros parte, não perdemos apenas uma pessoa.

Perdemos uma parte da memória viva de nossas lutas.

E quando essa memória não é transmitida, corre o risco de desaparecer.

Por isso, lembrar é também uma forma de lutar contra o esquecimento.


O PT como possibilidade histórica

O Partido dos Trabalhadores nasceu dessa história.

Nasceu da confluência de trabalhadores, sindicalistas, movimentos populares, intelectuais, comunidades e militantes que compreenderam que era necessário construir uma organização política capaz de disputar os rumos da sociedade brasileira.

Para aquela geração, o PT não era apenas uma legenda.

Era uma esperança organizada.

Era uma possibilidade histórica.

Era a tentativa de transformar a força social dos trabalhadores e das maiorias populares em força política capaz de disputar o Estado, as instituições e os rumos do desenvolvimento brasileiro.

Por isso, a partida de tantos companheiros também nos obriga a olhar criticamente para o presente.

E a pergunta precisa ser feita:

O PT de hoje ainda possui sonhos capazes de continuar a transformação iniciada nos anos 1980?

Esta não é uma pergunta dirigida apenas aos dirigentes partidários.

É uma pergunta para todos aqueles que continuam se reconhecendo nessa tradição.

Porque existe uma diferença profunda entre estar filiado a um partido e pertencer a uma tradição política.

Existe uma diferença entre ocupar um espaço institucional e compreender a luta social que tornou possível chegar até ele.

Existe uma diferença entre administrar aquilo que foi conquistado e manter viva a capacidade de conquistar aquilo que ainda falta.


O desafio de não confundir governo com transformação

O chamado Modo Petista de Governar carregava uma concepção que não se limitava à administração do Estado.

Havia ali uma tentativa de transformar a própria relação entre governo e sociedade: ampliar a participação popular, democratizar decisões, fortalecer políticas públicas, enfrentar desigualdades e colocar o Estado em movimento na direção daqueles que historicamente tiveram menos poder.

Essa experiência não pode ser reduzida a uma fórmula administrativa.

Ela nasceu de uma cultura política.

E uma cultura política só permanece viva quando continua produzindo novas práticas, novas ideias, novas organizações e novas gerações.

O risco aparece quando a institucionalidade passa a substituir a organização popular; quando a disputa por espaços de poder passa a ocupar o lugar da mobilização social; quando a política institucional deixa de ser instrumento para transformar a sociedade e passa a ser compreendida como finalidade.

Governar é importante.

Disputar o Estado é necessário.

Conquistar direitos por meio das instituições é fundamental.

Mas nada disso pode substituir a organização daqueles que vivem as contradições concretas da sociedade.

O Estado pode ser ocupado. A sociedade precisa ser transformada.

Essa distinção continua sendo decisiva.


Uma pergunta para as novas gerações

É justamente por isso que a memória de José Cerqueira nos interpela.

Que sociedade estamos construindo?

Que projeto de futuro estamos oferecendo aos jovens?

Que lugar ocupa o trabalhador em nossa política?

Que relação mantemos com as periferias?

Como estamos dialogando com os movimentos sociais?

O que estamos fazendo para que os jovens não sejam apenas eleitores, mas sujeitos da transformação social?

Essas perguntas não pertencem ao passado.

São perguntas do presente.

E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro significado das pessoas do PT.

Não está na quantidade de filiados.

Não está nos cargos ocupados.

Não está nos mandatos conquistados.

Não está nas posições alcançadas dentro da estrutura partidária.

Está na capacidade de permanecer inconformado diante da injustiça.

Está na disposição de organizar aqueles que possuem menos poder.

Está na coragem de disputar o futuro quando o presente tenta nos convencer de que nada pode ser diferente.

Está na capacidade de transformar indignação em organização, organização em consciência e consciência em ação coletiva.

Aos que partiram, nossa memória; aos que ficam, nossa responsabilidade

Este editorial é, antes de tudo, uma homenagem.

Uma homenagem aos que partiram.

Mas também aos que permanecem.

Aos que estiveram nas ruas.

Aos que ajudaram a organizar sindicatos, associações, movimentos, partidos, grêmios e comunidades.

Aos que enfrentaram derrotas sem abandonar seus sonhos.

Aos que compreenderam que nenhuma transformação histórica é obra de uma única pessoa.

Como editor-chefe do Blog do Sonkha, escrevo estas palavras também como alguém que compartilhou toda essa caminhada e reconhece, na trajetória desses companheiros e companheiras, uma parte importante da própria história política.

Não reivindico aqui uma memória individual.

Reivindico uma memória coletiva.

Porque aquilo que fomos não pertence apenas aos que viveram aquele tempo.

Pertence também aos que chegaram depois.

E é justamente por isso que precisamos contar essa história.

Não para transformar nossos companheiros em estátuas.

Mas para devolver às novas gerações as perguntas que eles carregavam.

Que mundo queremos construir?

Para quem queremos construí-lo?

Quem estará disposto a lutar por ele?


A luta continua

Quando todos se forem, quem continuará a tocar a luta por um mundo mais justo?

Talvez a resposta esteja justamente naqueles que ainda não chegaram.

Nas novas gerações.

Nos jovens que precisam descobrir que a história não terminou, que a sociedade não está condenada a permanecer como está e que o futuro continua sendo um território de disputa.

José Cerqueira e tantos outros não nos deixaram apenas saudades.

Deixaram exemplos.

Deixaram experiências.

Deixaram memória.

Deixaram contradições.

Deixaram perguntas.

Deixaram tarefas.

Os que partiram não levaram consigo os seus sonhos.

Eles nos deixaram esses sonhos como legado.

E legado político não é patrimônio para ser guardado.

É responsabilidade histórica para ser continuada.

Este é o sentido desta homenagem.

Este é o compromisso deste editorial.

E talvez seja também a melhor maneira de dizer aos nossos companheiros e companheiras que partiram:

A LUTA CONTINUA!

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