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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

José Cerqueira: memória de um tempo em que a política ainda sonhava com o futuro

 


José Cerqueira:

memória de um tempo em que a política

ainda sonhava com o futuro


*por Herberson Sonkha




Entre o mundo do trabalho, a militância estudantil e as disputas políticas do final dos anos 1980, a lembrança de José Cerqueira atravessa uma geração que aprendeu a não aceitar o presente como destino.

Meu pai, Alício, e meu tio, Herculano, conheceram José Cerqueira antes de mim. Foram colegas na Ultragaz, quando a vida os colocava diante da experiência concreta do mundo do trabalho, de seus conflitos, suas amizades, suas solidariedades e das contradições de uma sociedade na qual o trabalho nunca foi apenas meio de sobrevivência, mas também espaço de encontro, consciência e luta.

Muito tempo depois, tive a grata satisfação de conhecê-lo quando eu ainda era jovem, no final dos anos 1980, quando ele militava na Democracia Socialista (DS).

Eu militava no PCdoB.

É curioso como a memória, quando retorna àqueles anos, não recompõe apenas nomes, rostos e acontecimentos. Ela restitui uma atmosfera. Havia uma espécie de urgência histórica no ar. A política era vivida com a intensidade própria daqueles que acreditavam — talvez com uma generosa dose de ingenuidade — que era possível mudar o mundo antes mesmo de compreender inteiramente a dimensão da tarefa.

Éramos jovens, mas não nos faltavam certezas.

Disputávamos espaços, ideias, organizações e corações. Nas escolas, nos grêmios estudantis, nas entidades, nas ruas e nas assembleias, aprendíamos que a política não era uma abstração distante, reservada aos palácios, aos parlamentos ou aos donos do poder.

Ela estava ali, no cotidiano.

Estava nos conflitos, nas escolhas, nas alianças, nas divergências e, sobretudo, na capacidade de homens e mulheres se reconhecerem como sujeitos de uma história que não estava pronta.

Foi nesse ambiente que conheci Cerqueira.


A política como experiência

Nossos caminhos políticos não eram os mesmos. Eu vinha do PCdoB; ele militava no PT, na DS. Eu era dirigente da UBES e, naquele período, disputávamos a UMES e os Grêmios Livres contra as chapas ligadas à DS, sobretudo aquelas construídas sob a liderança estudantil de Dudú, Alexandre, Greco, Lívia, Isaías, Dimitri e tantos outros camaradas que fizeram daquele período uma experiência intensa de formação política.

Havia divergências profundas.

Havia disputas.

Havia paixões, impaciências e convicções próprias de uma juventude que acreditava estar diante de decisões capazes de alterar o curso da história.

Mas havia também algo que o tempo tornou mais nítido: a política não se fazia apenas de convergências.

Aprendíamos, ainda que nem sempre soubéssemos, que a história se movimenta onde existem interesses distintos, projetos em conflito e diferentes maneiras de interpretar o presente e imaginar o futuro.

A divergência, quando não se transformava em intolerância, podia ser também uma forma de aprendizado.

Foi nesse território de disputas estudantis, assembleias, reuniões, passeatas, bandeiras, panfletos e sonhos que conheci Cerqueira.

Décadas depois, eu viria a atuar, ainda que brevemente, na própria DS, ao lado de Cerqueira e de outros militantes. A vida política, com suas ironias, acabou nos aproximando por caminhos que a juventude provavelmente não teria imaginado.

Podíamos estar em lados diferentes de uma disputa e, ainda assim, reconhecer no outro a disposição para a luta, a capacidade de organização e a dignidade de quem não tratava a política como simples instrumento de ascensão pessoal.

Talvez essa seja uma das coisas que o tempo nos ensina melhor do que qualquer teoria: as fronteiras que, em determinada época, pareciam intransponíveis muitas vezes eram menores do que aquilo que nos unia.


Uma geração diante da história

Cerqueira pertencia a uma geração para a qual a política ainda carregava o peso de uma promessa histórica.

Não era apenas uma carreira. Muito menos um caminho para ocupar cargos.

Era uma forma de interpretar o mundo e, principalmente, uma tentativa de intervir sobre ele.

Havia naquela geração a convicção de que a sociedade não deveria ser tomada como uma realidade natural, definitiva ou inevitável.

As desigualdades tinham história.

Os privilégios tinham história.

As relações de poder tinham história.

E, se haviam sido construídos pelos homens, poderiam também ser transformados por eles.

Talvez não soubéssemos exatamente como.

Mas sabíamos que não queríamos aceitar o mundo como ele estava.

Hoje, olhando para trás, compreendo que aquela juventude talvez soubesse menos sobre o funcionamento do mundo do que imaginava. Éramos herdeiros de grandes esperanças e também de algumas ilusões.

Acreditávamos que a organização da vontade coletiva poderia acelerar a transformação da sociedade.

A experiência posterior nos ensinaria que a história é mais lenta, contraditória e resistente do que os nossos desejos.

As estruturas sociais não desaparecem porque desejamos que desapareçam. As relações de poder sobrevivem às mudanças de governos. Os privilégios encontram novas formas de reprodução. A desigualdade muda de aparência, adapta-se às circunstâncias e reaparece, muitas vezes, justamente onde imaginávamos ter vencido.

Mas talvez seja justamente essa a grandeza daqueles anos.

Não tínhamos todas as respostas, mas não aceitávamos as perguntas como inevitáveis.


Democracia, trabalho e esperança

Aquela geração havia aprendido, direta ou indiretamente, que a democracia não seria uma dádiva concedida de cima para baixo.

Ela precisaria ser construída no cotidiano: nas organizações populares, nos sindicatos, nas escolas, nos movimentos sociais, nos partidos, nas ruas e nos espaços onde trabalhadores, estudantes e cidadãos comuns pudessem transformar necessidades individuais em reivindicações coletivas.

A política aparecia menos como espetáculo e mais como experiência.

Era feita de reuniões intermináveis, debates acalorados, textos mimeografados, bandeiras carregadas pelas ruas, assembleias cheias, derrotas eleitorais, pequenas vitórias, amizades inesperadas e também rupturas dolorosas.

Era feita de gente.

E Cerqueira fazia parte dessa paisagem humana e política.

Por isso, lembrar dele não significa apenas recuperar uma trajetória individual. Significa também tocar, ainda que por alguns instantes, na memória de uma época em que a sociedade brasileira atravessava uma transformação profunda.

A ditadura havia ficado para trás, mas suas marcas permaneciam. A democracia era uma conquista recente, ainda incompleta, atravessada por desigualdades econômicas, sociais e políticas que não desapareceriam simplesmente porque o regime havia mudado.

Havia uma enorme expectativa de que a democracia pudesse inaugurar não apenas novas instituições, mas novas possibilidades de vida.

Para muitos de nós, liberdade política não significava apenas o direito de votar. Significava imaginar uma sociedade em que liberdade e igualdade pudessem caminhar juntas; em que democracia não fosse apenas uma forma de escolher governos, mas também uma maneira de disputar o destino coletivo.


A memória como território político

Talvez seja difícil explicar isso para quem cresceu em uma época na qual a política aparece frequentemente reduzida ao marketing eleitoral, à disputa por cargos e à velocidade das redes sociais.

Naquele tempo, tínhamos menos recursos tecnológicos e, talvez por isso mesmo, mais tempo para conversar.

A política exigia presença.

Era preciso estar lá.

Na assembleia. Na escola. Na reunião. Na passeata. No bairro. No sindicato. No partido. Na rua.

O corpo ainda fazia parte da política.

E é impossível lembrar Cerqueira sem lembrar também desses lugares.

A memória não funciona como um arquivo organizado. Ela se parece mais com uma cidade antiga: caminhamos por uma rua e, de repente, uma esquina nos devolve alguém; uma voz, um rosto, uma reunião, uma campanha, uma discussão que julgávamos esquecida.

Meu pai e meu tio conheceram Cerqueira no mundo do trabalho.

Eu o conheci no mundo da militância.

São caminhos diferentes, mas talvez não tão distantes quanto parecem.

Em ambos havia algo que nos aproximava: a experiência concreta de uma sociedade marcada por desigualdades e a necessidade de compreender, cada um à sua maneira, o lugar que ocupávamos nela.

Há uma continuidade silenciosa entre o trabalhador que experimenta no cotidiano as contradições do mundo do trabalho e o jovem que, ao entrar na política, procura compreender por que determinadas pessoas concentram tanto poder enquanto tantas outras precisam lutar diariamente pelo direito de viver com dignidade.

É nesse ponto que a memória deixa de ser apenas lembrança e se transforma em interpretação.

Não somos somente aquilo que pensamos ser. Somos também resultado das relações sociais que nos constituem, das experiências que vivemos, das lutas que travamos, das derrotas que sofremos e das esperanças que compartilhamos.

A consciência de uma geração não nasce no vazio.

Ela se forma no encontro entre experiência e conflito, entre condições concretas de existência e capacidade de imaginar outra realidade.

Talvez tenha sido isso que nos levou à política.

Não apenas uma ideia abstrata de sociedade, mas a percepção — ainda rudimentar, às vezes intuitiva — de que aquilo que existe não precisa necessariamente continuar existindo da mesma maneira.


O que permanece

É por isso que algumas pessoas permanecem em nossa memória mesmo quando o tempo passa e as circunstâncias mudam.

Não permanecem apenas pelo que fizeram individualmente, mas porque suas histórias se entrelaçam com determinado momento coletivo.

José Cerqueira é, para mim, uma dessas presenças.

Sua lembrança atravessa diferentes tempos da minha própria vida: o tempo em que eu era filho e ouvia falar de um colega de trabalho do meu pai e do meu tio; o tempo em que me tornei jovem militante e encontrei esse mesmo homem no terreno das disputas políticas; e o tempo presente, no qual olho para trás e percebo que aqueles encontros ajudaram a formar quem somos.

A distância histórica também produz outra forma de compreensão.

Aquilo que, na juventude, parecia apenas uma disputa entre organizações pode hoje ser visto como parte de uma experiência maior: a tentativa de uma geração de construir sujeitos coletivos capazes de disputar os rumos da sociedade.

Nem tudo deu certo.

Alguns sonhos foram derrotados. Outros foram deformados. Alguns companheiros seguiram caminhos diferentes. Houve desencantos, rupturas e perdas.

A história não cumpriu o roteiro que imaginávamos.

Mas talvez nunca tenha sido esse o seu papel.

A história não é uma promessa de realização automática dos nossos desejos. É um campo aberto de possibilidades, atravessado por forças que se confrontam, por escolhas humanas e por condições que não controlamos inteiramente.

É justamente por isso que a ação política continua sendo necessária.


Uma memória que não envelhece

A juventude acreditava que poderia mudar o mundo imediatamente.

O tempo nos ensinou que nenhuma transformação profunda é simples, rápida ou linear.

Mas o tempo também não conseguiu nos convencer de que o mundo é imutável.

E talvez essa seja a lição mais importante que permanece.

As sociedades mudam porque homens e mulheres, em determinadas circunstâncias históricas, decidem que aquilo que existe não é suficiente.

Alguns entram para a história.

Outros permanecem na memória.

E há aqueles que fazem as duas coisas sem sequer perceber.

Cerqueira pertence, para mim, à memória desse tempo.

Um tempo em que a política ainda sonhava com o futuro.

Um tempo em que a juventude carregava bandeiras grandes demais para os próprios ombros, mas suficientemente grandes para nos ensinar a caminhar juntos.

Lembrá-lo é também lembrar quem fomos.

E lembrar quem fomos não significa desejar voltar ao passado. Significa reconhecer que muito do que somos hoje foi construído naqueles encontros, naquelas disputas, naquelas amizades e até mesmo nas divergências que, vistas à distância, ganham outra dimensão.

Talvez seja essa a função mais generosa da memória: não nos devolver o passado, mas permitir que compreendamos melhor o presente.

Por isso, quando penso em José Cerqueira, não penso apenas em alguém que passou pela minha vida.

Penso em uma época.

Penso em uma geração.

Penso em meu pai e em meu tio na experiência do trabalho. Penso em mim, jovem, descobrindo a política. Penso nas ruas, nas escolas, nas assembleias e nas organizações. Penso nos amigos e adversários de então, muitos dos quais o tempo transformou em companheiros de uma mesma memória.

E penso, sobretudo, na esperança.

Não na esperança ingênua de que a história obedecerá aos nossos desejos, mas naquela esperança mais difícil e persistente: a de que, apesar das derrotas, ainda podemos agir sobre o mundo.

Talvez seja isso que Cerqueira nos deixe.

A lembrança de que a política pode ser mais do que uma disputa por poder.

Pode ser uma forma de dignidade.

Pode ser uma maneira de dizer que a realidade não é uma fatalidade.

Pode ser, enfim, a disposição humana de olhar para um mundo marcado por desigualdades e afirmar, mesmo diante das dificuldades: poderia ser diferente.

E algumas memórias, felizmente, não envelhecem.

Cerqueira, presente! 

Cerqueira, presente!

Cerqueira, presente!


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