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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O bilolismo no Brasil

 


*por Herberson Sonkha




Certa vez, uma colega muito pudica resolveu externar sua profunda insatisfação com um péssimo hábito de certos homens: ir ao banheiro e sair de lá sem lavar as mãos — quando muito, molhá-las com a água da torneira, num gesto meramente cenográfico, como quem assina o ponto da higiene pública.

Ela comentava o episódio com o rosto tomado por uma expressão que misturava angústia, indignação e nojo. O problema, dizia ela, não era propriamente o banheiro. Era o homem que dele saía. Sobretudo aquele que, depois de ouvir o anúncio triunfal da descarga, atravessava o lavabo com as mãos rigorosamente secas, como se tivesse acabado de sair de uma biblioteca.

Hoje, a higiene das mãos depois do uso do banheiro tornou-se uma exigência quase civilizatória. Um rito contemporâneo. Uma espécie de sacramento sanitário que, queira ou não queira, impõe à masculinidade uma camisa de força higiênica.

Mas há homens que resistem.

Resistem heroicamente.

Entram no banheiro, fazem o que têm de fazer e saem de mãos secas, como se nada tivesse acontecido. A descarga cumpre sua função republicana, limpa o passado, apaga as evidências e entrega o recinto ao próximo cidadão. Só as mãos permanecem como testemunhas silenciosas do ocorrido.

Na tentativa de me convencer da urgência de combater esse comportamento — talvez até tipificá-lo como crime hediondo, com direito a investigação da Polícia Federal e perícia da Vigilância Sanitária —, minha colega relatou um episódio que, pela riqueza dos detalhes, parecia menos uma conversa de botequim e mais um Boletim de Ocorrência.

Segundo ela, certa vez estava em um restaurante, aguardando sua vez de usar o banheiro, quando viu um homem sair.

Até aí, tudo normal.

O problema começou quando percebeu que ele havia saído exatamente como entrara: com as mãos secas.

Não passou pelo lavabo.

Não abriu a torneira.

Não tocou no sabonete.

Não manifestou sequer aquela culpa mínima que a civilização costuma exigir de seus membros.

Saiu.

Simplesmente saiu.

Minha colega, entretanto, não se limitou à constatação. Sua imaginação, sempre muito mais eficiente que a perícia criminal, começou a reconstruir a cena.

Imaginou que o homem havia retirado sua micharia diminuta — uma bilola insignificante, porém, segundo ela, suficientemente virulenta para espalhar urina onde quer que encontrasse oportunidade.

Agarrou a bilola com a mão.

Direcionou-a cuidadosamente para a circunferência sanitária, numa tentativa de evitar que os respingos atingissem o chão.

Até aí, vá lá.

O problema estava na mão.

Aquela mesma mão que segurara a bilola, percorrera seu corpo raquítico, controlara seu destino hidráulico e, provavelmente, deixara digitais por toda a superfície daquela pequena autoridade anatômica.

E nada de água.

Nada de sabão.

Nada de arrependimento.

A colega foi particularmente enfática ao descrever a insignificância da criatura.

Disse que a bilola era desmilinguida.

Pequena.

Quase uma nota de rodapé da anatomia masculina.

E que, diante dos movimentos da mão, não oferecia qualquer resistência.

Era, portanto, uma relação de poder profundamente desigual: de um lado, a mão; do outro, a bilola. A primeira, soberana. A segunda, submissa. E, ao final do processo, ambas saíam da cena deixando para trás um problema muito maior que suas dimensões originais.

Foi aí que percebi a verdadeira dimensão filosófica do caso.

A indignação da colega não decorria apenas da possibilidade de haver resíduos de urina nas mãos do cidadão. Havia algo mais profundo.

Era a desproporção.

Uma bilola minúscula podia produzir uma mão potencialmente contaminada, capaz de apertar outra mão, abrir uma porta, segurar um copo, pegar um talher, cumprimentar alguém e, quem sabe, tocar numa superfície que seria tocada por dezenas de pessoas.

A pequenez anatômica, portanto, não correspondia à pequenez social de suas consequências.

A bilola podia ser insignificante.

A mão, não.

Minha colega considerava aquilo um desrespeito.

Só não ficou inteiramente claro se o desrespeito estava na bilola, na mão ou na civilização.

Também não ficou claro se ela se sentia ofendida pela falta de higiene ou pela desproporção entre a insignificância do órgão e o tamanho do problema sanitário que ele poderia produzir.

Mas havia, naquele relato, uma convicção inabalável: o homem era culpado.

E não apenas aquele homem.

Todos.

A generalização veio com a naturalidade das grandes teorias sociais:

— Homem é assim.

Pronto.

Estava criada uma sociologia.

Se todo homem usa a bilola com a mão, se todo homem segura a bilola com a mão e se parte considerável deles sai do banheiro sem lavar a mão, então não estamos diante de um simples hábito.

Estamos diante de uma cultura.

Uma cultura nacional.

Uma instituição.

Uma tradição.

Um patrimônio imaterial da masculinidade brasileira.

O bilolismo.

O bilolismo, portanto, seria essa singular doutrina segundo a qual a mão masculina, depois de estabelecer relações diplomáticas com a bilola, pode circular livremente pela sociedade sem passar pelo humilde, porém revolucionário, processo de lavagem.

Talvez seja a única ideologia brasileira que dispense manifesto, partido e programa de governo.

Basta uma torneira.

E, curiosamente, é justamente aí que ela encontra seu maior adversário.

A água.

O sabonete.

E o bom senso.

Porque talvez a grande tragédia do bilolismo brasileiro não esteja na existência da bilola, nem mesmo na sua insignificância.

A tragédia está em acreditar que, depois dela, a mão continua sendo a mesma.

Não é.

E o pior é que ela continua apertando a nossa.


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