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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Servidão, Estado e Imperialismo

Servidão, Estado e Imperialismo:

Uma leitura marxista do discurso sobre a servidão voluntária

e seus limites para a análise da venezuela contemporânea



*Dirlei A. Bonfim

*Herberson Sonkha




RESUMO

O presente artigo propõe uma releitura crítica do Discurso sobre a Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, a partir do instrumental da teoria social marxista, examinando seus limites explicativos para a compreensão da crise política venezuelana e das tensões geopolíticas associadas à possibilidade de intervenção externa por parte dos Estados Unidos. Sustenta-se que, embora La Boétie ofereça uma intuição relevante acerca da dominação fundada no consentimento dos dominados, sua formulação permanece insuficiente para explicar as formas contemporâneas de poder em sociedades capitalistas dependentes. A partir das contribuições de Marx, Engels, Gramsci, Althusser, Lênin, Poulantzas e do marxismo latino-americano  (com destaque para Vânia Bambirra e Eduardo Galeano) argumenta-se que a dominação deve ser compreendida como resultado da articulação entre coerção, hegemonia, estrutura de classes, dependência histórico-estrutural e imperialismo. Conclui-se que a superação da dominação não decorre da simples recusa à obediência, mas de processos históricos de organização política e transformação das condições materiais de existência.


Palavras-chave: Servidão voluntária. Marxismo. Estado. Dependência. Imperialismo. Venezuela.



1 INTRODUÇÃO

O Discurso sobre a Servidão Voluntária, atribuído a Étienne de La Boétie e escrito no século XVI, ocupa lugar singular na história do pensamento político ao sustentar que o poder tirânico não se impõe exclusivamente pela força, mas se sustenta no consentimento (ativo ou passivo) dos próprios dominados. Essa formulação tem sido frequentemente mobilizada como chave interpretativa para analisar contextos contemporâneos de autoritarismo, inclusive na América Latina.

Todavia, a aplicação direta desse referencial à realidade venezuelana e às hipóteses de intervenção externa por parte dos Estados Unidos exige mediações teóricas rigorosas. O presente artigo parte da premissa de que a leitura boeciana, quando isolada, incorre em um voluntarismo político incapaz de apreender as determinações estruturais do poder em sociedades capitalistas periféricas. Assim, propõe-se uma incorporação crítica do pensamento de La Boétie ao interior da teoria social marxista, deslocando o eixo explicativo da vontade individual para as relações sociais de produção, a forma histórica do Estado, a hegemonia, a dependência e o imperialismo.


2 A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA COMO INTUIÇÃO PRÉ-MARXISTA DA DOMINAÇÃO

La Boétie sustenta que “o tirano não tem mais poder do que aquele que lhe é concedido” (LA BOÉTIE, 2016, p. 38), afirmando que a submissão prolongada gera o hábito da obediência e apaga a memória da liberdade. Nessa perspectiva, a tirania se sustenta menos pela violência direta e mais pela cooperação cotidiana dos próprios dominados.

Sob o prisma da teoria social marxista, essa formulação pode ser compreendida como uma intuição pré-marxista da dominação. Marx e Engels demonstram que a dominação não se funda prioritariamente na esfera da consciência, mas nas condições materiais da vida social. Em A ideologia alemã, afirmam que “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes” (MARX; ENGELS, 2007, p. 47). Assim, a obediência não resulta de uma escolha livre, mas de processos históricos de alienação e reprodução das relações de classe.

A “perda da memória da liberdade” apontada por La Boétie pode, portanto, ser reinterpretada como expressão da alienação social, entendida como separação dos indivíduos em relação ao controle das condições materiais e simbólicas de sua própria existência (MARX, 2004).


3 ESTADO, COERÇÃO E IDEOLOGIA: ALTHUSSER E GRAMSCI

Um dos limites centrais da leitura boeciana reside na subestimação dos mecanismos institucionais do poder. Althusser (1985) demonstra que o Estado se reproduz por meio da articulação entre os Aparelhos Repressivos do Estado, que operam predominantemente pela coerção, e os Aparelhos Ideológicos do Estado, responsáveis pela reprodução das relações sociais por meio da ideologia.

Nesse sentido, a permanência de regimes autoritários não pode ser explicada apenas pela aceitação popular, mas pela capacidade estatal de interpelar ideologicamente os indivíduos como sujeitos, mantendo a repressão como horizonte permanente.

Gramsci aprofunda essa análise ao formular o conceito de hegemonia, compreendida como direção intelectual e moral exercida por uma classe sobre o conjunto da sociedade (GRAMSCI, 2001). O consenso, nessa chave analítica, não elimina a coerção, mas a complementa, produzindo formas de adesão passiva, fragmentada e instável.

Aplicado ao caso venezuelano, isso implica compreender o Estado não como expressão de um tirano individual, mas como forma histórica de dominação de classe inserida em um bloco histórico em crise.


4 DEPENDÊNCIA, ESPOLIAÇÃO HISTÓRICA E CAPITALISMO PERIFÉRICO:

MARXISMO LATINO-AMERICANO, VÂNIA BAMBIRRA E EDUARDO GALEANO

A crise venezuelana não pode ser analisada exclusivamente no plano político-institucional. O marxismo latino-americano demonstra que as economias periféricas se caracterizam por uma inserção dependente no capitalismo mundial. Marini (2000) identifica essa condição como marcada pela superexploração da força de trabalho e pela vulnerabilidade estrutural às crises do sistema internacional.

Vânia Bambirra aprofunda essa interpretação ao demonstrar que o capitalismo dependente não constitui uma etapa transitória rumo ao desenvolvimento pleno, mas uma forma estrutural específica de reprodução do capital. Segundo a autora, as formações sociais dependentes apresentam mercados internos frágeis, elevada concentração de renda e Estados tensionados, que frequentemente recorrem a soluções autoritárias para garantir a reprodução social (BAMBIRRA, 2015).

Essa análise estrutural encontra forte respaldo histórico na obra de Eduardo Galeano. Em As veias abertas da América Latina, o autor demonstra que a região foi historicamente integrada ao mercado mundial por meio de ciclos sucessivos de saque, espoliação e subordinação, sendo “especializada em perder” para garantir a acumulação de riqueza nos centros do capitalismo (GALEANO, 2010, p. 17). Galeano evidencia que a dependência não é apenas econômica, mas histórica, política e geopolítica, permanentemente atualizada por novas formas de dominação imperialista.

No caso venezuelano, a dependência do petróleo, a fragilidade produtiva e as sanções econômicas internacionais afetam diretamente as condições materiais de vida da população, limitando sua capacidade de organização e resistência. Assim, a ausência de mobilização unificada não pode ser interpretada como simples servidão voluntária, mas como expressão de um cerco estrutural, histórico e sistêmico à soberania econômica e política (DOS SANTOS, 1978; GALEANO, 2010).


5 IMPERIALISMO E GEOPOLÍTICA: LÊNIN E POULANTZAS

A hipótese de uma intervenção dos Estados Unidos na Venezuela insere-se na lógica do imperialismo contemporâneo. Lênin (2012) define o imperialismo como uma fase do capitalismo marcada pela concentração monopolista, pela exportação de capitais e pela disputa entre grandes potências por zonas de influência.

Poulantzas (2000) complementa essa análise ao afirmar que o Estado nacional é um condensado material das relações de classe, atravessado simultaneamente por determinações internas e externas. Dessa forma, política interna e geopolítica não constituem esferas autônomas, mas dimensões interdependentes da dominação capitalista.

Nesse sentido, uma intervenção externa não pode ser concebida como solução para contradições internas, mas como mecanismo de reprodução ampliada do imperialismo, frequentemente aprofundando a dependência e a instabilidade social.


6 RESISTÊNCIA, CONSCIÊNCIA DE CLASSE E PRÁXIS

Ao contrário da proposta boeciana de simples recusa à obediência, o marxismo compreende a emancipação como resultado da práxis coletiva orientada para a transformação das condições materiais de existência. Marx (1982) afirma que os filósofos apenas interpretaram o mundo, quando o essencial é transformá-lo.

Lukács (2003) destaca que a consciência de classe não emerge espontaneamente, mas se constrói no interior das lutas sociais. Gramsci (2001) enfatiza, ainda, o papel dos intelectuais orgânicos na construção de uma contra-hegemonia capaz de disputar o sentido da ordem social e política.


7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Discurso sobre a Servidão Voluntária oferece contribuição relevante para a reflexão sobre a dominação política, mas revela limites significativos quando aplicado às sociedades capitalistas contemporâneas sem mediação teórica. Incorporado criticamente ao marxismo, o conceito de servidão voluntária pode ser reinterpretado como expressão ideológica da alienação e da hegemonia de classe em contextos de dependência estrutural.

A análise da Venezuela exige compreender o Estado como forma histórica de dominação articulada à dependência econômica, à espoliação histórica e à lógica imperialista global. A superação da dominação não decorre da simples recusa à obediência, mas da transformação das estruturas sociais, da organização política das classes subalternas e da construção de um projeto contra-hegemônico capaz de enfrentar simultaneamente a dominação interna e a subordinação externa.



REFERÊNCIAS

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos do Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Florianópolis: Insular, 2015.

DOS SANTOS, Theotonio. A teoria da dependência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2010.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da servidão voluntária. São Paulo: Martins Fontes, 2016.

LÊNIN, Vladimir I. O imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2012.

LUKÁCS, György. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Petrópolis: Vozes, 2000.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.

POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder, o socialismo. São Paulo: Graal, 2000.


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