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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Balanço e Perspectivas

Foto: Carlos Maia

*por Carlos Maia



Chega-se ao final de 2025, e de praxe, todos os segmentos dos movimentos políticos, econômicos, socioculturais e ideológicos sérios esforçam-se em realizar balanços das atividades do ano que se finda, para, a partir daí, possa estabelecer novos rumos e novas metas e, também, novas perspectivas de continuidade da organização, de novos projetos para uma devida estruturação, propaganda e formação de novos personagens que se despontam no enfrentamento da luta de classes.

E para este intento, devemos nos apoiar em uma metodologia rigidamente científica, para que possamos dar saltos, no que se refere ao projeto a ser construído pelas mãos e mentes daqueles que, não abrem mãos de princípios do arcabouço teórico-prático, ou, científico-crítico, ou ainda, da filosofia da práxis (o materialismo histórico dialético).

Não comporta em balanços e perspectivas deste tipo, o achismo e o sofismar eterno e efêmero do idealismo filosófico metafísico-positivista, tão comum naquelas análises de pedantismo grosseiro dos intelectuais da academia. Aqui nos esforçaremos, dentro das nossas limitações de caráter teórico, a seguir o caminho dos clássicos do marxismo-leninismo, a quem, não se deve poupar esforços em apreender o método rigoroso rico do conhecimento dialético. Portanto, apesar de estarmos analisando os movimentos artísticos-culturais e políticos/econômicos/ideológicos, no restrito espaço das fronteiras do nosso município, necessário se faz, entretanto, realizar a medida do possível, ilações mais gerais, em que está enquadrada a conjuntura, no estado, no país e no mundo.

Vivemos numa cidade, a terceira mais importante do Estado da Bahia, que a despeito de uma já tradicional propaganda de se estar por habitar uma comunidade desenvolvida do ponto de vista econômico, político e cultural, teimamos por debater e afirmar, que isso se dar em pequenos e às vezes insignificantes círculos de “intelectuais”, artistas e segmentos de trabalhadores do movimento sindical e popular, não mais que isso. Conquista é uma cidade em que o conservadorismo oligarca ainda se faz presente nos vários espaços de influência midiática, como também possui uma dita classe média de origem pequenos burguesa altamente reacionária, preconceituosa, xenofóbica, misógina e machista. O discurso de que no passado esta cidade se colocava enquanto “guardiã da democracia” e da “resistência à ditadura”, é nos dias de hoje, abafado por uma forte influência de uma corrente política que sempre foi forte e sempre se fez representar a nível estadual e nacional (o carlismo), agora presente na direção política do município, e que, conta com o apoio, antes e acima de tudo, da maioria esmagadora do conjunto da classe dominante local (agropecuaristas, grandes/médios e pequenos comerciantes, empresários da construção civil e imobiliárias, industriais e profissionais liberais ligados à saúde, educação, à burocracia e à justiça). A estes somam ainda às igrejas evangélicas e os católicos carismáticos, cujas pregações embotam os corações e mentes de parcelas significantes da população, impregnando de ideologias alienantes e retrógradas, anestesiando as condutas rebeldes dos trabalhadores e da juventude.

Assim, a classe dominante com os seus aliados, se encontra, no momento presente, unida em função de um projeto político conservador neofascista. É este, portanto, o que alimenta todas as ações do poder público municipal. A isso, até aqui, não existe nenhuma novidade do ponto de vista da correlação de forças e das manobras quanto ao desgaste dos focos de resistência ao projeto do governo municipal. A classe dominante hegemônica conquistense se articula claramente com os representantes estaduais do carlismo, tendo em vista o próximo pleito eleitoral de 2026. É neste sentido, que através de todos os mecanismos de governo (secretarias, câmara municipal, etc.), a prefeitura bate firme no sentido de garantir a sua consolidação por mais tempo no poder municipal, com a perspectiva de voos mais longos por parte da prefeita, que a cada dia que passa, surpreende no trato com os setores oposicionistas e/ou segmentos reivindicatórios, como por exemplo, o Movimento Cultura Conquista, que mesmo tendo visibilidade maior neste último período, não foi capaz ainda, de articular de forma desestabilizadora, uma ação de combate aos pilares em que estão firmadas às bases do edifício da máquina do poder municipal, o que faz com que a prefeitura acabe por nadar de braçadas nas raias da cultura. Neste sentido, o poder público municipal vai continuar jogando duro no desgaste natural do Movimento Cultura Conquista. Tampouco irá ceder um milímetro na sua política, pois vê neste movimento um adversário capaz de influenciar de forma negativa os seus saldos eleitorais. A classe dominante a frente do poder público municipal se preparar para mais um pleito eleitoral, em um cenário de crise profunda do sistema capitalista, mas que, a nível do município, por questões de ordem específicas, ainda se mantém capaz de gerenciar os destinos da aldeia. A classe dominante endossa às atitudes e iniciativas do poder municipal, quer seja no executivo quanto no legislativo. E é por conta disso que a prefeitura se dar o direito de tomar empréstimos na ordem de R$ 400.000.000 de reais, com o apoio da câmara de vereadores. E não é demais lembrar que toda eleição se define com capital.

Nunca é demais lembrar ainda os objetivos políticos / econômicos / sociais / culturais / ideológicos presentes em todas às conjunturas em que se enfrentam as classes e/ou segmentos de classes. Mas, nas conjunturas onde se processam eleições, a burguesia além de reciclar os seus quadros e serviçais, acaba, em primeiro plano, utilizando ao máximo do recurso ideológico do voto, para aplicar o verniz da pseudo democracia, desviando assim, a atenção para problemas centrais de caráter permanente tais como: a) o desemprego; b) a violência; c) a miséria; d) a fome; e) o arrocho salarial; e f) a inflação e a crise de exaustão como um todo. Além do mais, vivemos em um mundo hoje totalmente informatizado, onde a IA prepara a mão de obra dos futuros trabalhadores(as), para uma destreza para com às máquinas e o maquinismo. Isso pode facilitar muito a vida dos humanos, mas, pode ainda, embestializá-los na sua práxis diária.    

Contudo, apesar dos pesares, o Movimento Cultura Conquista foi a luta na tentativa de articular os principais agentes produtores da cultura no município e no dia 14/05/2025 em reunião com um pequeno, mas seleto e comprometidos representantes das artes e da cultura, estabeleceu os seguintes pontos de vistas consensuais acerca dos movimentos gerais e específicos da cidade, no que se refere à cultura e às artes. Foram estes os pontos resolutivos:

1. Articular e fazer um chamamento a TODOS aqueles que interessados possam estar comprometidos com uma discussão séria e mais que urgente de uma pauta para a Cultura e as Artes.

2. Realizar a partir da Carta Proposta do Movimento Movimenta Conquista, um amplo chamamento aos coletivos e/ou organizações artístico-culturais, bem como professores, alunos e organizações da juventude para cerrar fileiras conosco na realização de um CONGRESSO DE CULTURA DE VITÓRIA DA CONQUISTA.

3. Trabalhar desde já a discussão do caráter e a fisionomia de um Conselho Municipal de Cultura, livre, autônomo e independente.

4. Resgatar a prática de autossustentação financeira (Livro de Ouro, rifas, etc.) como instrumentos necessários à construção de um movimento cultural forte e voltado para uma práxis autônoma e igualmente livre/independente.

5. Estabelecer um contato mais íntimo com os coletivos e entidades literárias, artísticas e culturais, na perspectiva de construção de uma direção político-social atuante, no que se refere a uma produção teórica-crítica e de comprometimento com os anseios sociais, éticos, estéticos, psíquicos da formação da juventude e de homens, mulheres, bem como dos setores específicos de gênero, cor de pele, sexo ou etnias diversas (povos originários) que  compõem o círculo ascendente do conjunto das massas exploradas e oprimidas do nosso povo, no geral e da classe operária, em especial do operariado fabril produtor de mais valor, consequentemente do capital e do lucro.

6. Combater toda e qualquer forma de privatização dos espaços culturais, assim como dos projetos excludentes implantados pelos poderes constituídos, com o nítido e claro objetivo de alienação e/ou corrupção política-ideológica.

7. Combater toda e qualquer forma de luta inconstitucional, que não contemple às leis já adquiridas pelos movimentos sociais organizados.

8. Na certeza de que, cada vez mais, aumente-se e amplie-se estes pontos acima enumerados, é que reafirmamos o nosso desejo de ver, com toda a transparência objetiva, o funcionamento mais que urgente dos espaços (Teatro Carlos Jehovah, Cine Madrigal e Casa de Glauber Rocha). Ponto de partida para a realização de sonhos. Pois, “é preciso sonhar, mas com a capacidade de crer em nossos sonhos, de confrontar nossos sonhos com a realidade e realizar escrupulosamente a nossa fantasia” (Lênin).


Já em 20/08/2025, em “Nota Pública”, o Movimento Cultura Conquista realiza um provisório balanço da conjuntura municipal, no que concebe a cultura, colocando aí o descaso do governo municipal, sua Secretaria de Cultura e o seu Conselho Municipal de Cultura frente aos diferentes coletivos das artes. Coloca ainda a nota que desde o momento em que a prefeitura recebeu o Movimento Cultura Conquista (25/03/2025), representado pelo Gabinete Civil na pessoa do senhor Ivanildo Souza, acompanhado do Secretário de Cultura Eugenio Avelino (Xangai) e do Coordenador de Cultura Alexandre Magno, nada de relevante foi apresentado. Estes representantes da prefeitura propuseram um prazo de 45 dias (02/05/2025) para estudar as propostas do Movimento e dar as devidas respostas. Já se passaram oito (08) meses e o silêncio é o que se verificou de lá para cá. Sobre isso, a “Nota Pública” do Movimento Cultura Conquista vaticina:

“Vivemos uma realidade cada vez mais degradante na cidade como precarização dos trabalhadores da cultura, fechamento de equipamentos culturais, deterioração de patrimônio público, retorno de verbas da cultura para a União no valor de quase meio milhão de reais, parcos editais (reforçando que, a maioria dos que foram lançados, são advindos de verbas federais das Leis Paulo Gustavo e da Política Nacional de Cultura Aldir Blanc), concentração de recursos em eventos, dentre outros.”


E conclui a nota colocando o seguinte:

“Tanto a prefeita e seu governo, assim como a maioria dos parlamentares que compõem a Câmara de Vereadores são cúmplices do atraso cultural da nossa cidade. É preciso a efetivação de políticas públicas para a cultura com escuta. É necessário combatermos o processo de deterioração do patrimônio público e cultural. É inadmissível que a verba pública da cultura seja direcionada aos interesses privados em detrimento do público e que a política de eventos seja soberana.”


A classe dominante conquistense tem, tão somente, do ponto de vista de uma coordenada ação de combate para com a juventude e o conjunto dos artistas e proliferadores culturais em geral, um total desrespeito e descaso pelas mais sublimes e justas reinvindicações de cunho superestrutural de um movimento e um desenvolvimento da estrutura produtiva, em que está instalado o modo de produção capitalista, em sua correspondente formação social baseada nas relações de produção e trabalho, que mantém na esfera da organização política do poder de Estado, a mais alta gama de exploração e opressão das massas de operários, camponeses sem-terra, trabalhadores sem teto, movimentos feministas, de negros, de gênero, de sexo, de quilombolas, dos povos originários, dos LGBTQIA+, e, também de toda a gama de desempregados (crônicos e estruturais) que fazem parte da composição do exército industrial de reserva da ordem do capital.

Por fim, soma-se a isso tudo, a luta extremamente necessária que se faz em defesa do ecossistema global, na defesa sempre presente da flora, da fauna e da natureza como um todo. Pois, como diz o poeta: “(...) cuidar do mundo para cuidar do ser, ou cuidar do ser para cuidar do mundo (...)” (MAIA, Carlos – Poemas Reunidos – 2025).



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Carlos Maia – Membro Efetivo da Academia Conquistense de Letras, da Casa de Cultura Carlos Jehovah, do Coletivo de Escritores de Conquista, do Movimento Cultura Conquista, coordenador do CEPEC (Centro de Estudo e Pesquisa Edmilson Carvalho), poeta, ensaísta e escritor memorialista.


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