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sábado, 4 de abril de 2026

O Coronel quer ser Reitor

*por Igor Ventura 



Em Pedra Branca, cidade onde o vento levanta poeira e boatos na mesma proporção, havia um sujeito conhecido por muitos nomes — mas bastava dizer O Coronel Universitário que todos sabiam de quem se tratava. Não era apelido dado à toa: ele parecia estar em toda parte onde houvesse influência ou silêncio conveniente.

No campus de Pedra Branca, quando algo estranho acontecia — um processo que sumia, uma denúncia que esfriava, um escândalo que evaporava antes de virar notícia — alguém sempre murmurava: “isso tem dedo dele”. E tinha.

O Coronel Universitário cultivava seus aliados como quem cultiva terra fértil: regava com recursos, protegia das intempéries e colhia lealdade quando precisava. Seus pares, gente de histórico turvo e práticas ainda mais questionáveis, circulavam com a tranquilidade de quem sabe que não será incomodado. Não ali. Não enquanto ele estivesse por perto.

Mas o que tornava tudo ainda mais curioso — ou trágico — era o cenário em que isso acontecia.

A universidade de Pedra Branca não era mais a mesma de décadas atrás. Havia ali laboratórios novos, projetos de extensão, debates sobre tecnologia, inclusão, ciência e futuro. Jovens de diferentes origens atravessavam seus portões com ideias que desafiavam hierarquias antigas. Professores falavam em autonomia, em produção de conhecimento, em transformação social. A universidade avançava, ainda que com dificuldades, como avançam todas as instituições vivas: entre contradições, mas olhando para frente.

E então, no meio desse movimento, surgia ele — figura que parecia saída de outro tempo.


O coronel

Não aquele do retrato antigo, de chapéu de couro e jagunços à porta, mas sua versão atualizada: de terno bem cortado, trânsito em gabinetes e discurso calculado. Um coronelismo que trocou o curral eleitoral pelo controle institucional, que substituiu a violência explícita pela gestão de silêncios, que aprendeu a operar não contra a modernidade, mas dentro dela.

Porque o erro era pensar que o coronelismo havia ficado no passado.


Em Pedra Branca, ele apenas havia mudado de linguagem

O tempo, esse bicho indomável, começou a soprar novos ventos. E com eles veio uma ideia que muitos julgaram absurda — até perceberem que, na verdade, era apenas coerente com sua trajetória.


O coronel queria ser reitor

A notícia correu pelas ruas de paralelepípedo, pelas mesas de bar e pelos corredores da universidade como um trovão em céu seco. Reitor? Houve quem risse. Houve quem se indignasse. E houve, claro, quem começasse a articular.

Porque, se havia algo que o coronel sabia fazer, era traduzir atraso em estratégia. Dinheiro do agronegócio não faltava — esse corria solto, irrigando campanhas, financiando eventos, comprando apoios discretos. E as alianças políticas, essas já estavam bem plantadas, mesmo que em terreno pouco ético.

A universidade, para ele, não era um espaço de saber — era território. Mais um. Um que ainda não havia sido conquistado, mas que, em sua lógica, precisava ser.


E ali residia o conflito central

De um lado, uma instituição que, apesar de suas limitações, se estruturava sobre princípios modernos: debate público, produção coletiva de conhecimento, autonomia relativa frente aos poderes locais. De outro, uma lógica antiga, personalista, baseada na lealdade, no favor e no controle — onde o público se dobra ao privado, e a instituição vira extensão do mando.


Não era apenas uma disputa por cargo

Era o choque entre tempos históricos que insistem em coexistir.

Nos corredores, professores cochichavam entre si, estudantes se organizavam em pequenos grupos de resistência, técnicos observavam com cautela. Alguns diziam que era impossível que aquilo vingasse — que a universidade já havia avançado demais para aceitar esse tipo de domínio. Outros, mais atentos à história, sabiam: o novo nem sempre substitui o velho; às vezes, o velho aprende a usar a roupa do novo.


Enquanto isso, ele sorria

Em Pedra Branca, o sorriso do coronel nunca era gratuito. Era sempre anúncio de movimento.

E assim, entre promessas veladas, apoios comprados e silêncios ensurdecedores, a universidade assistia a mais um capítulo de sua própria história — aquela em que o poder não se apresenta, se infiltra.

E talvez a pergunta que ecoasse, ainda sem resposta, não fosse se o coronel poderia se tornar reitor.

Mas se uma universidade que cede ao coronelismo ainda consegue, de fato, ser moderna.

2 comentários:

  1. Interessante como podemos traçar paralelismos entre as duas figuras, do reitor e do coronel, e ter uma crítica contemporânea.

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  2. *Quando a ética incomoda, inventa-se um coronel*

    *Por Arlete Dória*

    Em Pedra Branca, onde o vento levanta poeira e versões cuidadosamente financiadas da realidade, não é raro que histórias ganhem mais força do que os fatos — especialmente quando servem a interesses bem definidos.

    A narrativa sobre o tal “Coronel Universitário” segue exatamente esse roteiro: cria-se uma figura caricata, concentra-se nela tudo o que se deseja combater e, assim, preserva-se, intacto, o verdadeiro problema — *aquele que não pode ser nomeado.*

    Porque, no fundo, não se trata de um homem.

    Trata-se de um incômodo.

    O incômodo de alguém que não se curva facilmente às engrenagens já estabelecidas. Alguém que, ao contrário do que se tenta sugerir, não opera pelo silêncio conveniente, mas pela ruptura dele. E isso, em ambientes onde o acordo tácito vale mais que o princípio, costuma ser imperdoável.

    É aí que entram os virtuosos de ocasião.

    Grupos organizados — muitos deles alinhados a interesses de outras organizações bastante claros — que há anos orbitam a universidade como se ela fosse extensão de seus projetos de poder. São esses mesmos grupos que, em nome de uma suposta defesa da autonomia, trabalham, silenciosamente, para mantê-la sob controle. Controle ideológico, político e, não raro, financeiro.

    A contradição não é acidental. É estrutural.

    Fala-se em combate ao “coronelismo”, mas o que se preserva, com zelo quase religioso, são as velhas práticas de aparelhamento, favorecimento e manutenção de redes fechadas. Não aquelas descritas na crônica — essas são apenas úteis como distração — mas as que operam sob o verniz da institucionalidade e do discurso progressista.

    Há geupos— e isso já não é segredo em Pedra Branca — que dependem diretamente da manutenção desse arranjo. Precisam de uma universidade previsível, alinhada, domesticada em suas divergências. Uma universidade onde o debate exista, desde que não ameace os acordos previamente estabelecidos.

    Nesse contexto, qualquer figura que escape a esse script precisa ser rapidamente redefinida.

    E nada mais eficaz do que ressuscitar rótulos historicamente carregados: “coronel” para quem tenta liderar com democracia e " jagunços" para quem luta junto de sua efetivação.

    Mas eis a ironia que o texto não ousa admitir: aquilo que se chama de coronel, muitas vezes, é justamente o oposto do que se descreve.

    É quem insiste em princípios quando o ambiente prefere negociações silenciosas.
    É quem cobra responsabilidade quando o habitual é relativizar.
    É quem tensiona estruturas que, há muito, deixaram de ser questionadas.

    Chamá-lo de coronel é, portanto, menos uma descrição e mais uma estratégia.

    Uma forma de deslegitimar sem precisar debater.
    De afastar sem precisar enfrentar.
    De preservar estruturas sem precisar justificá-las.

    Enquanto isso, os verdadeiros mecanismos de poder seguem intactos — protegidos por discursos bem elaborados, financiados por interesses que jamais aparecem na superfície e operados por aqueles que aprenderam que, na política, controlar a narrativa é tão importante quanto controlar os espaços.

    A universidade de Pedra Branca, apresentada como palco de um conflito entre “modernidade” e “atraso”, é, na verdade, cenário de algo mais complexo — e mais honesto de se admitir: uma disputa entre diferentes projetos de poder.

    De um lado, os que falam em democracia, mas a praticam dentro de limites bem definidos.
    De outro, os que, ao tensionar esses limites, tornam-se rapidamente alvos.

    No fim, talvez a pergunta mais importante não seja se há um coronel, tentando ocupar a universidade.

    Mas por que a ética, o compromisso com princípios democráticos e a responsabilidade social passaram a ser tão perigosos a ponto de precisarem ser apontados como ameaça.

    Em Pedra Branca, como em tantos outros lugares, o problema nunca foi o rótulo.

    Foi quem decidiu colá-lo — e o que tinha a perder se ele não fosse acreditado.

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