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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Editorial Especial – 1º de Maio

Imagem: anarquista.net

"O Blog do Sonkha reafirma a luta internacional

da classe trabalhadora pela emancipação

material, intelectual e cultural."



*por Herberson Sonkha, editor do Blog do Sonkha



A consolidação histórica do capitalismo, a partir da Revolução Burguesa de 1789, na França, marca a afirmação da burguesia como classe dominante e a institucionalização de um modo de produção fundado na exploração do trabalho. Como afirmam Karl Marx e Friedrich Engels, “a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes” (Manifesto do Partido Comunista, 1848). Essa formulação não apenas descreve um processo histórico, mas também estabelece um método de análise — o materialismo histórico — que permite compreender as determinações estruturais da sociedade capitalista.

No plano econômico, a produção capitalista organiza-se em torno da extração da mais-valia, isto é, da apropriação privada do excedente produzido pelo trabalho. Conforme demonstrado por Marx em O Capital, há uma distinção fundamental entre o valor da força de trabalho e o valor produzido por ela no processo produtivo, sendo essa diferença a base da exploração capitalista. Trata-se, portanto, de uma relação social historicamente determinada, e não de um mecanismo neutro de geração de riqueza. Em contraste, a tradição liberal, especialmente em sua vertente neoclássica, tende a interpretar o mercado como um sistema autorregulado de alocação eficiente de recursos, frequentemente desconsiderando as assimetrias estruturais entre capital e trabalho e os condicionantes históricos da desigualdade.

No contexto latino-americano e brasileiro, essa dinâmica assume características ainda mais agudas. Ruy Mauro Marini, ao desenvolver a teoria da dependência, demonstra que o capitalismo periférico se estrutura a partir da superexploração da força de trabalho, expressa na intensificação do trabalho, no prolongamento das jornadas e na remuneração inferior ao valor necessário para a reprodução digna do trabalhador (Dialética da Dependência, 1973). Tal formulação permite compreender por que, em países dependentes, a acumulação capitalista se articula com formas mais profundas de desigualdade social.

No plano social, o capitalismo produz uma sociabilidade marcada pela concentração de riqueza e pela ampliação das desigualdades. Como analisa Marx, a acumulação de riqueza em um polo da sociedade implica, simultaneamente, a produção de miséria e precarização em outro (O Capital, Livro I). No Brasil, Florestan Fernandes demonstra que a transição para o capitalismo ocorreu de forma dependente e conservadora, sem ruptura com estruturas herdadas do escravismo, o que contribuiu para a permanência de desigualdades profundas (A Revolução Burguesa no Brasil, 1975). Nessa mesma direção, Clóvis Moura evidencia que a população negra foi historicamente incorporada à sociedade de classes em condições de marginalização e subordinação, revelando a articulação entre exploração de classe e opressão racial (Sociologia do Negro Brasileiro, 1988).

No plano político, o Estado desempenha papel central na reprodução dessas relações. Conforme argumenta Vladimir Lenin, o Estado constitui um instrumento de dominação de classe (O Estado e a Revolução, 1917), operando tanto por meio da coerção quanto pela organização institucional da sociedade. Louis Althusser amplia essa compreensão ao demonstrar que a reprodução das relações de produção se realiza também por meio dos aparelhos ideológicos do Estado, que atuam na formação de valores, crenças e consensos sociais (Aparelhos Ideológicos de Estado, 1970). Em oposição, a tradição liberal tende a conceber o Estado como uma instância neutra, voltada à garantia de direitos e à proteção da propriedade — perspectiva que, sob análise crítica, revela sua vinculação histórica com a manutenção da ordem capitalista.

No campo ideológico contemporâneo, observa-se a difusão de teses que relativizam ou negam a centralidade da classe trabalhadora, enfatizando a fragmentação das lutas sociais. Embora tais abordagens contribuam para o reconhecimento de múltiplas formas de opressão, sua dissociação em relação à base material da sociedade pode limitar a compreensão da totalidade social. Em contraposição, autores como Ricardo Antunes sustentam que a classe trabalhadora não desapareceu, mas se transformou e ampliou suas formas de inserção no mundo do trabalho, mantendo sua centralidade na produção da riqueza social (Os Sentidos do Trabalho, 1999). De modo semelhante, Ellen Meiksins Wood argumenta que a separação entre economia e política é uma construção histórica do capitalismo, o que exige uma análise integrada dessas dimensões (Democracia contra Capitalismo, 1995).

As resistências a avanços nos direitos trabalhistas, como a redução de jornadas exaustivas, evidenciam a permanência das contradições estruturais do capitalismo. Como demonstra Marx, a tendência do capital é ampliar ao máximo a extração de trabalho, subordinando as condições de vida à lógica da acumulação (O Capital, Livro I). Esse movimento histórico revela que os conflitos entre capital e trabalho permanecem centrais na dinâmica social contemporânea.

Neste 1º de Maio, data emblemática da luta internacional da classe trabalhadora, o Blog do Sonkha reafirma seu compromisso com uma análise crítica fundamentada no pensamento marxista e com a defesa das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras. Reconhece-se que a emancipação material, intelectual e cultural exige não apenas a ampliação de direitos, mas a transformação das próprias relações sociais que estruturam a produção e a distribuição da riqueza.

Como já assinalado por Marx nos estatutos da Associação Internacional dos Trabalhadores, “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores” (1864). Trata-se, portanto, de um processo histórico que exige organização, consciência de classe e articulação política, orientado para a construção de um projeto de sociedade que supere as desigualdades estruturais e afirme, de forma concreta, a dignidade humana em todas as suas dimensões.

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