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quarta-feira, 25 de março de 2026

Rompi, logo permaneço

Imagem: Guia do Estudante

*por Herberson Sonkha



Dizem que o espírito esportivo nasceu com Pierre de Coubertin (Jogos Olímpicos da Era Moderna em 1896), mas, se ele tivesse passado uma temporada nos corredores de uma universidade pública brasileira, talvez tivesse acrescentado um adendo à sua teoria: o fair play é uma ficção elegante quando confrontado com a vocação humana para a conveniência.

Na UESB (esse campo onde não se joga bola, mas se disputa poder com a mesma intensidade de uma final olímpica) surgiu um atleta peculiar. Não corre, não salta, não arremessa. Ele articula.

Foi reitor quem não podia mais ser, foi pró-reitor quando convinha e tornou-se candidato quando não foi escolhido. Uma trajetória admirável, se não fosse, ao mesmo tempo, uma tese viva sobre a elasticidade ética.

Chamemos nosso personagem de “ex-atual-atual pró-reitor de pós-graduação”, uma categoria administrativa inovadora, digna de publicação em periódico Qualis A1. Ex, porque rompeu. Atual, porque não saiu. Atual de novo, porque, se perder, volta. Uma dialética funcional que faria até Hegel pedir revisão de conceito.

Tudo começou quando o coletivo (essa entidade abstrata que só é bonita quando decide a nosso favor)  escolheu outro nome para a sucessão. O nosso herói, defensor histórico da democracia (desde que plebiscitariamente ungido), interpretou o resultado como um equívoco da realidade. E, como todo bom reformador do mundo, decidiu corrigi-la… sozinho.

Mas não antes de um gesto nobre: evitar o diálogo. Afinal, conversar com o reitor que o nomeou poderia contaminar a pureza de sua indignação. O silêncio, nesse caso, foi estratégico (uma espécie de fair play às avessas, onde o respeito é substituído por movimentos de bastidor).

Lançada a candidatura, veio o discurso: “rompi com a gestão”. Uma frase forte, categórica, quase heroica. Pena que a realidade burocrática (essa senhora enfadonha) insistisse em registrar apenas um singelo pedido de licença. Rompimento, ao que parece, só no campo retórico. Na prática, uma pausa técnica com possibilidade de retorno, caso o eleitorado não compreenda sua grandeza.

É o rompimento de Schrödinger: rompeu e não rompeu ao mesmo tempo.

Mas o auge da performance veio na crítica à própria gestão. Terra arrasada, disse ele. Um deserto administrativo onde apenas um oásis floresceu: sua pró-reitoria. Uma obra-prima de autoelogio involuntário. Afinal, se tudo era tão ruim, o que fazia ele lá até ontem? Resistência? Sacrifício? Ou apenas conveniência institucional com data de validade?

No esporte, isso equivaleria ao jogador que, após anos vestindo a camisa do time, declara, ao sair: “o time sempre foi ruim — exceto eu”. E, por via das dúvidas, deixa o uniforme pendurado no armário, caso precise voltar no próximo campeonato.

O fair play, nesse cenário, não foi apenas ignorado (foi reinterpretado). Tornou-se um conceito flexível, moldável, adaptável às circunstâncias. Lealdade virou tática. Coerência, opcional. Transparência, um detalhe dispensável quando se tem um bom discurso.

No fim das contas, nosso ex-atual-atual pró-reitor talvez não tenha entendido mal o jogo. Talvez tenha entendido bem demais (só que o jogo errado). Não o da ética, mas o da conveniência.

E assim segue a universidade, esse grande estádio sem arquibancada, onde os aplausos são silenciosos e as vaias, muitas vezes, vêm em forma de voto.

Se Pierre de Coubertin estivesse vivo, talvez não ficasse indignado. Talvez apenas anotasse, com certa melancolia:

- O importante não é competir. É saber de que lado da coerência você decidiu não jogar.


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