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domingo, 29 de março de 2026

A crônica sobre um sujeito improvável

Foto: Agência Sertão

*por Herberson Sonkha



Tem-se lido, assistido e escutado, com uma insistência quase litúrgica, uma tese que se pretende verdadeira: a elegante narrativa da terra arrasada. Não se trata de um fenômeno natural, desses que devastam lavouras ou alagam cidades; é algo mais sofisticado, produzido nos laboratórios discursivos de certa intelligentsia ressentida. Na UESB, essa narrativa ganhou corpo, voz e, curiosamente, um porta-voz que insiste em performar o papel de sujeito crítico enquanto opera, na prática, como seu oposto.

A odisseia é conhecida: percorre os três campi, ecoa nos corredores, infiltra-se nas salas e reproduz-se com vigor nas redes sociais. Seu objetivo é simples, quase pueril: apagar quase uma década de avanços [de 2018 a 2026] capturando da realidade apenas aquilo que lhe convém, as contradições, como se estas não fossem, por definição, o motor do próprio desenvolvimento social. Nada mais previsível.

O curioso é que essa retórica não se sustenta pela força dos fatos, mas pela habilidade em negar o que é e afirmar o que não é. Uma espécie de alquimia discursiva em que a ausência vira argumento e o silêncio, prova. Nesse ponto, convém recordar uma velha crônica, dessas que circulam mais na oralidade do que nos compêndios acadêmicos. Ouvi-a, há décadas, em um curso de formação sindical. Não sei quem a escreveu, tampouco quando, mas sua atualidade é constrangedora.

Conta-se que uma raposa [sempre elas] percebeu no crescimento da população de suínos uma oportunidade de negócio. Visionária, como convém à burguesia em suas melhores fases predatórias, convidou representantes dos porcos para uma sociedade. Prometeu lucros, expansão, modernidade. Falou em fast-food, esse templo contemporâneo onde tudo é rápido, inclusive a morte, mas evitou, com uma elegância admirável, as letras miúdas do contrato.

Os representantes, entusiasmados, voltaram à sua base. Houve aplausos, euforia, um certo glamour — porque até a exploração, quando bem embalada, pode parecer progresso. Quando surgiam dúvidas, raras, diga-se, desviavam o foco: apontavam problemas antigos, falhas estruturais, contradições históricas. Nada mais eficaz do que trocar o objeto da pergunta.

Assinado o contrato, os suínos foram conduzidos ao novo empreendimento. Organizados, disciplinados, quase orgulhosos. Só então descobriram que “proteína” [palavra bonita, técnica, quase científica] significava, na prática, eles mesmos. Mas já era tarde. O Estado, esse fiel guardião da ordem contratual, estava ali para garantir que tudo se cumprisse conforme previsto. Inclusive o abate.

A moral da história dispensa rodapé: em sociedades capitalistas, a linguagem não apenas descreve a realidade — ela a produz, a distorce e, quando necessário, a sacrifica.

É nesse terreno que floresce a crítica contemporânea de gabinete, aquela que, com ar grave e vocabulário inflado, insiste em negar evidências empíricas em nome de uma suposta coerência intelectual. Na UESB, essa operação ganha contornos quase caricaturais. Sobretudo quando protagonizada por figuras que, ao reivindicarem para si o estatuto de sujeitos críticos, acabam por revelar-se meros operadores de uma narrativa que lhes antecede e os ultrapassa.

Há aqui um paradoxo digno de nota: o sujeito que se pretende autônomo, crítico e esclarecido dissolve-se na repetição mecânica de um discurso que nega a própria materialidade histórica. Uma espécie de sujeito sem substância, que fala muito sobre tudo, mas pouco sobre o essencial.

Talvez isso explique o incômodo com os dados mais básicos. Em 2018, não havia Pró-Reitoria de Assistência Estudantil. O orçamento era, na prática, inexistente. Serviam-se menos de dez mil refeições, concentradas em Vitória da Conquista. Em 2026, a realidade é outra: Restaurante Universitário em Itapetinga, consolidação em Jequié, três refeições diárias a dois reais, cerca de trezentas mil refeições servidas. O orçamento? O segundo maior entre as pró-reitorias. Mas, para a narrativa da terra arrasada, esses números são meros detalhes — inconvenientes, é verdade, mas contornáveis.

Do ponto de vista das ciências sociais, da economia e da ciência política, não há mistério: ampliar a oferta de políticas públicas expõe contradições. Sempre expôs. É da natureza do processo. O que surpreende não é a existência das contradições, mas a tentativa pueril de transformá-las em prova da inexistência dos avanços. Aqui, a crítica deixa de ser análise e passa a ser performance.

E, como toda performance, precisa de emoção. Daí o recurso recorrente à indignação seletiva, à denúncia inflamada, ao escândalo fabricado. Fenômeno que se pode ler à luz da psicologia social e política, especialmente nas reflexões de Wilhelm Reich sobre a formação de disposições autoritárias e a mobilização irracional das massas. Não se trata de patologia, mas de política: emoções organizadas em torno de interesses.

Nesse cenário, a figura do crítico [ou daquele que assim se apresenta] assume um papel peculiar. Ele não apenas interpreta o mundo; ele o simplifica, o distorce e, quando necessário, o reinventa. Sempre em nome de uma verdade que, curiosamente, nunca precisa se confrontar com a realidade.

O resultado é um discurso que oscila entre o trágico e o cômico. Trágico, porque contribui para deslegitimar políticas que impactam diretamente a vida de estudantes historicamente excluídos — periferia, população negra, mulheres negras, quilombolas, juventude negra, povos originários, população LGBTQIAPN+ e Pessoas com Deficiência. Cômico, porque frequentemente parte de sujeitos que já estiveram em posições de poder e nada fizeram de substantivo para alterar essa mesma realidade que agora dizem defender.

E assim seguimos: entre a raposa e o bacon, entre a crítica e a caricatura, entre o sujeito e sua ausência.

No fim das contas, talvez a grande inovação dessa narrativa não seja a denúncia da terra arrasada, mas a produção de um sujeito que, ao tentar se afirmar como crítico, termina por revelar-se apenas mais um personagem de uma história que ele próprio não compreende — e, ao que tudo indica, tampouco controla.

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