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O Forró em risco: a invasão do "Breganejo" no São João Baiano
"Quando a indústria cultural substitui o rito pela mercadoria,
a Bahia perde mais do que uma festa: perde sua memória e sua alma."
*por Herberson Sonkha
Sob o prisma da crítica cultural e da antropologia da performance, observa-se, no cenário junino na Bahia, principalmente na região sudoeste, um fenômeno que extrapola a simples mudança de repertório musical. Trata-se de uma verdadeira erosão do forró [patrimônio imaterial brasileiro, reconhecido por sua capilaridade social e densidade simbólica] diante do avanço devastador de um produto midiático apressadamente classificado como "sertanejo". Ou, para usar a terminologia precisa e despida de eufemismos, um "breganejo" de fachada, cuja ascensão revela muito mais sobre a lógica deletéria da indústria cultural do que sobre a genuína tradição nordestina.
Antes de proceder à análise dos agentes e estruturas que viabilizam tal usurpação, faço coro à postura ética e intransigente do forrozeiro Flávio José. Sua recusa digna em participar da armadilha midiática que legitima esse golpe estético e político contra a cultura popular não é um gesto isolado, mas um ato de resistência epistemológica, uma defesa intransigente do ethos que sustenta a música de raiz.
A epistemologia do clássico e do efêmero
É imperativo distinguir o que a grande imprensa valida como "arte" daquilo que, de fato, resiste ao tempo e à voracidade do mercado. A indústria cultural, operando nos moldes frankfurtianos, transforma a produção artística em fetiche, destituindo-a de seu valor crítico e histórico. Obras de Picasso, Tarsila do Amaral, Frida Kahlo ou Van Gogh eternizaram-se porque carregam a tensão do espírito humano e de seu tempo, transcendendo a moda passageira. Da mesma forma, no universo da música popular, canções como "Asa Branca", de Luiz Gonzaga, rompem a barreira do regionalismo para se tornarem hinos nacionais, aproximando-se do que há de clássico na cultura popular – um movimento dialético que compositores como Villa-Lobos e Elomar Figueira também souberam operar, elevando a tradição oral à categoria de erudição sem jamais trair sua matriz primitiva.
A questão que se impõe, portanto, não é a oposição entre erudito e popular, mas a distinção entre o duradouro e o efêmero. Enquanto o clássico popular expressa a alma de um povo, o produto da indústria cultural é descartável, feito para circular e logo ser substituído por outro fetiche.
A sociabilidade junina como rito ancestral
Para aqueles que vivenciaram a efervescência cultural da última década do século XX em Vitória da Conquista – nos colégios Polivalente, CIENB e Paulo VI – o São João não se resumia à dança mecânica ao som da sanfona, zabumba e triângulo. Era um rito de passagem, um investimento coletivo na preparação do território festivo: estender bandeirolas, construir barracões, plantar bananeiras, juntar lenha para a fogueira, ensaiar a quadrilha e confeccionar as iguarias típicas (o porco assado, o milho na brasa, os bolos e o quentão). Havia ali uma sinergia entre o corpo, a natureza e o sagrado – um modus vivendi que se transmitia de geração em geração, e que servia de substrato para as composições de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Nando Cordel, Dominguinhos e Mão Branca.
Esse fluxo cultural, que emerge de baixo para cima, a partir das periferias e dos sertões, é o que confere autenticidade à festa. Ninguém, naquela época, ousava propor outro ritmo que não o xote, o baião ou o xaxado [igualmente no carnaval propor sofrência, uma outra modalidade de breganejo]. A música era expressão de um território existencial, não um mero produto de exportação.
O simulacro "Sertanejo" e a indústria cultural
Diferentemente desse processo orgânico, a indústria cultural massifica e uniformiza o gosto, produzindo uma "geleia geral" que descaracteriza as particularidades regionais para universalizar comportamentos de consumo – calças, calçados, veículos e moda. Isso explica, antropologicamente, a nossa adesão irracional à calça jeans de 14 onças sob o calor escaldante do trópico.
Nesse contexto, vivenciamos a invasão do "sertanejo" nas festas juninas. Sob a ótica da antropologia simbólica, a adoção do arquétipo country estadunidense – calças apertadas, cinturões de fivelão, botas, chapéus de cowboy e barbas frisadas – não passa de um simulacro. Somos geopoliticamente sertanejos, mas não sob a égide da cultura norte-americana. Os verdadeiros mestres do gênero, como Léo Canhoto e Robertinho (ambos conquistenses), que se apresentavam na Praça Nove de Novembro, tinham uma estética completamente diversa, sem a intenção de colonizar o Nordeste pelo viés do aculturamento. A imposição desse simulacro revela uma violência simbólica que fragiliza a capacidade cognitiva da nossa população de reconhecer suas próprias raízes.
O custo econômico e simbólico da substituição
Essa massificação frívola não apenas descaracteriza o São João, mas gera um desequilíbrio econômico perverso. O forró, patrimônio cultural brasileiro, é substituído por um produto de baixo nível estético e intelectual, que inflaciona os cachês dos artistas da indústria e rebaixa os honorários dos verdadeiros guardiões da tradição, como Flávio José, Mão Branca e Santana. Trata-se de um desserviço que, quando financiado com dinheiro público, exige posicionamento ético e coerência de todos os agentes culturais.
A resistência como atitude antropofágica
Portanto, posicionar-se contra essa invasão não é um ato de saudosismo ou de purismo estéril, mas uma exigência da crítica literária, da sociologia e da antropologia cultural. Para a Bahia, berço de tantas manifestações sincréticas e resistentes, deixar-se subjugar por essa massificação é trair a própria vocação antropofágica de Oswald de Andrade – a capacidade de digerir a influência estrangeira sem perder a identidade.
É dever de todos nós, cidadãos e formuladores de políticas públicas, defender o forró como patrimônio vivo, repudiando qualquer tentativa de apagar nossa memória em nome de uma indústria que enxerga apenas a lógica do lucro, e não a complexidade da alma nordestina. A festa de São João deve continuar sendo o palco do encontro genuíno entre o homem e sua terra, e não o desfile vazio de uma mercadoria globalizada.

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